Povos indígenas do Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre
https://pt.wikipedia.org/wiki/Povos_ind%C3%ADgenas_do_Brasil

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Conteúdos
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Início
1
Definição
2
Origem
Alternar a subsecção Origem
2.1
Genética
2.2
Ocupação do Brasil
3
As sociedades tradicionais
Alternar a subsecção As sociedades tradicionais
3.1
Diversidade e unidade
3.2
Organização da aldeia e sustento
3.3
Estrutura social e familiar
3.4
Tradições, crenças, conhecimentos e valores
3.4.1
Relação com o ambiente e a terra
3.4.2
Cultura e arte
3.5
Outros modelos de sociedade
4
Contato com os europeus e assimilação à sociedade brasileira
Alternar a subsecção Contato com os europeus e assimilação à sociedade brasileira
4.1
Ancestralidade indígena na atual população brasileira
5
Situação recente
Alternar a subsecção Situação recente
5.1
Legislação e política
5.2
Articulação interna
5.3
Demografia
5.3.1
Povos isolados
5.3.2
Povos emergentes
5.3.3
Terras indígenas
5.4
Economia e desenvolvimento
5.5
Educação
5.6
Saúde
5.7
Evangelização e aculturação
5.8
Identidade indígena
6
Dia dos Povos Indígenas
7
Ver também
8
Referências
9
Bibliografia
Alternar a subsecção Bibliografia
9.1
Livros
9.2
Periódicos
9.3
Teses acadêmicas
10
Ligações externas
Alternar o índice
Povos indígenas do Brasil
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Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Povos indígenas do Brasil
Indígenas respectivamente dos povos:
Ashaninka, Assurini, Bororo, Kayapó, Guajajara, Kaiowá, Kuikuro, Kaingang, Zo'è, Yanomami, Xacriabá, Yawalapiti, Wauja, Waiwai, Terena e Rikbaktsa
População de
nativos
por
município
segundo o
censo demográfico do Brasil de 2022
População total
1 693 535
segundo o Censo de 2022, aproximadamente 0,8% da população do
Brasil
[
1
]
Regiões com população significativa
Línguas
Línguas indígenas
e
português
. O número de línguas indígenas é incerto, variando conforme os critérios utilizados, mas pode chegar a cerca de 270.
Religiões
Religiões tradicionais e
cristianismo
Grupos étnicos relacionados
Povos ameríndios
Os
povos indígenas do Brasil
compreendem um grande número de diferentes
grupos étnicos
que habitam o país desde milênios antes do início da
colonização portuguesa
, que principiou no
século XVI
, fazendo parte do grupo maior dos
povos ameríndios
. No momento da
chegada dos portugueses ao Brasil
, os povos nativos eram compostos por povos
seminômades
que subsistiam da
caça
,
pesca
,
coleta
e da
agricultura
itinerante, desenvolvendo culturas diferenciadas. Apesar de protegida por muitas leis, a população indígena foi amplamente exterminada pelos conquistadores diretamente e pelas doenças que eles trouxeram, caindo de uma população de milhões para cerca de 150 mil em meados do
século XX
, quando continuava caindo. Apenas na década de 1980 ela inverteu a tendência e passou a crescer em um ritmo sólido. No censo do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
de 2022, 1 693 535 brasileiros se autodeclararam indígenas, embora milhões de outros tenham algum grau de
ascendência
indígena. Ainda sobrevivem diversos
povos isolados
, sem contato com a
civilização
dominante.
Os povos indígenas brasileiros deram contribuições significativas para a sociedade mundial, como a domesticação da
mandioca
e o aproveitamento de várias plantas nativas, como o
milho
, a
batata-doce
, a
pimenta
, o
caju
, o
abacaxi
, o
amendoim
, o
mamão
, a
abóbora
e o
feijão
. Além disso, difundiram o uso da
rede de dormir
e o costume do
banho
diário, desconhecido pelos europeus do
século XVI
. Para a
língua portuguesa
legaram uma multidão de nomes de lugares, pessoas, plantas e animais (cerca de 20 mil palavras), e muitas de suas lendas foram incorporadas ao
folclore brasileiro
, tornando-se conhecidas em todo o país. Também foram importantes aliados dos portugueses, mesmo que involuntários, na consolidação da conquista territorial, defendendo e fixando cada vez mais distantes fronteiras, e deram grande contribuição à composição da atual
população nacional
através da
mestiçagem
.
Suas culturas diversificadas compunham originalmente um rico mosaico de tradições, línguas e visões de mundo que, depois de serem longamente desprezadas como típicas de sociedades bárbaras, ingênuas e atrasadas, ou no máximo apreciadas como exotismos e curiosidades, hoje já começam a ser vistas em larga escala como culturas complexas, sofisticadas em muitos aspectos, interessantes por si mesmas e portadoras de valores importantes para o mundo moderno, como o respeito pela Natureza e um modo de vida
sustentável
, merecendo consideração como qualquer outra. Mesmo assim, a degradação das culturas tradicionais pelo contato assíduo com a civilização tem sido rápida mesmo dentro das reservas, acarretando penosas repercussões sociais.
Para muitos observadores, o destino dos povos indígenas do Brasil ainda é incerto, e esperam muitas lutas pela frente. Os conflitos que os envolvem continuam a se multiplicar; mortes, abusos, violência e disrupção interna continuam a afligir muitas comunidades, mesmo com todos os avanços e toda proteção jurídica, com toda a conscientização política das comunidades e sua mobilização conjunta, e mesmo com o apoio de expressiva parcela da população brasileira não índia e organismos internacionais. Há poderosos interesses políticos e econômicos em jogo, e mesmo interesses culturais. Ainda falta muito para que eles consigam garantir
suas terras
e uma sobrevivência digna e independente da tutela do governo, que historicamente os entendeu como incapazes e chamou a si a responsabilidade de "administrá-los", mas tem sido também incapaz de assegurar-lhes
os direitos
que já foram definidos constitucionalmente, e vem sendo acusado até de promover profundos retrocessos de maneira deliberada, que dão continuidade a um secular
genocídio
, atraindo com isso pesadas e incessantes críticas em casa e no estrangeiro.
Definição
[
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|
editar código
]
Uma das mais antigas representações europeias dos indígenas brasileiros, incluída no
Atlas Miller
de 1519
Na
Idade Média
, a palavra "índio" era empregada para designar todas as pessoas do
Extremo Oriente
. Ao chegar às Américas,
Cristóvão Colombo
acreditou que havia encontrado um novo caminho para as
Índias
e chamou os nativos que encontrou de "índios".
[
2
]
O conceito de "índio" é, portanto, uma invenção europeia e de cunho depreciativo, pois não realça a diversidade dos povos indígenas.
[
3
]
Os habitantes originais das Américas nunca se viram como um só povo. Pelo contrário, diferentes grupos indígenas nutriam grande animosidade e constantemente guerreavam entre si.
[
4
]
A denominação mais conhecida das várias
etnias
quase nunca é a forma como seus membros se referem a si mesmos, e sim o nome dado pelos brancos europeus ou por outras etnias, muitas vezes inimigas, que os chamavam de forma depreciativa, como é o caso dos
caiapós
, denominação que lhes foi atribuída por povos
tupis
e que significa "semelhante a macaco".
[
5
]
Origem
[
editar
|
editar código
]
Ver artigos principais:
Povos ameríndios
,
Povoamento das Américas
, e
Arqueologia da América
Hipótese da colonização em três ondas migratórias
Todos os seres humanos descendem de antepassados que habitaram a
África
, local onde o
Homo sapiens
surgiu entre 100 e 200 mil anos
antes do presente
(AP). Por milhares de anos, a África foi o único lugar do mundo onde havia pessoas.
[
6
]
As primeiras
a saírem de lá
o fizeram, acredita-se, há cerca de 50-60 mil anos, e a partir de então passaram a se espalhar pelo resto do mundo. Sua primeira irradiação foi para o
Oriente Médio
, a única ligação terrestre da África com o restante do mundo, e dali as correntes migratórias se dispersaram: alguns seguiram para o oeste, atingindo a
Europa
, enquanto outra parcela rumou para o leste, atingindo a
Ásia
. O isolamento prolongado entre essas populações acabou por transformá-las, dando-lhes diferentes características físicas e hábitos de vida, adaptando-se a novos ambientes.
[
7
]
Os povos das
Américas
(ameríndios) são descendentes do grupo que seguiu para o leste e que povoou a Ásia. Sua penetração na América foi explicada por várias teorias, e atualmente a mais aceita diz que a passagem foi feita através do
estreito de Bering
, em data ainda controversa, mas durante a
Idade do Gelo
.
[
8
]
Naquele tempo, com o declínio da temperatura mundial, o gelo do mundo se expandiu, rebaixando o
nível do mar
e expondo terra seca entre a
península de Chukotka
, no extremo nordeste da Ásia, e a
península de Seward
, na
América do Norte
, criando
uma ligação transitável
entre os dois pontos. Com o fim da Idade do Gelo o nível do mar subiu, inundando a ligação dos dois continentes, impedindo novas migrações e separando as populações que ficaram na Ásia das que migraram para a América. Como não havia alternativa, essas pessoas continuaram se deslocando, ao longo de milhares de anos, rumo ao sul, povoando a
América Central
e a
América do Sul
.
[
6
]
[
8
]
[
9
]
O mapa à esquerda ilustra a hipótese da colonização em três ondas migratórias com populações de diferentes regiões da Ásia, o chamado "Modelo de Berígia", proposto por Greenberg
et alii
, bastante aceito na comunidade científica, embora não consensual.
[
10
]
[
11
]
Em marrom, o mapa atual; em ocre, a terra variavelmente exposta na
glaciação
, e a área em branco é o gelo terrestre entre 36 e 16 mil anos AP. Antes de c. 43 mil anos AP os nômades chegaram ao extremo leste da Ásia. Entraram na
Beríngia
e ali teriam ficado até c. 16 mil anos AP, bloqueados pelo gelo de progredir mais para o leste. O gelo avançou e recuou várias vezes neste período glacial, fazendo variar o nível do mar e alternativamente vedando ou abrindo acessos a pé seco. Ali o mar era raso e a exposição máxima de terra seca ocorreu entre 23 e 19 mil anos, abrindo um
istmo
de mais de mil quilômetros de largura. A inundação final da passagem aconteceu entre 12 e 11,3 mil anos AP.
[
10
]
[
12
]
Exatamente como e quando as passagens foram aproveitadas pelas populações nômades, em que número elas passaram, e que linhagens genéticas traziam, são as grandes incógnitas.
[
8
]
[
10
]
Corte
estratigráfico
de um
sambaqui
, comum em assentamentos litorâneos de toda a América, com ossadas e camadas de conchas e artefatos
Durante muito tempo se julgou que os primeiros humanos a se fixarem na América haviam sido os chamados
povos de Clóvis
, instalados no
Novo México
,
Estados Unidos
, cujos registros mais antigos, reavaliados recentemente, teriam c. 13-14,5 mil anos,
[
10
]
[
11
]
e sugerem uma entrada na América um pouco anterior. Contudo, essa teoria tem sido desacreditada nas últimas décadas,
[
13
]
[
14
]
em função da descoberta de diversos sítios arqueológicos em várias partes do continente com datas ainda mais antigas,
[
8
]
[
9
]
[
15
]
notadamente o sítio de
Monte Verde
, no
Chile
, que segundo Arkley Bandeira foi confirmado com 33 mil anos de antiguidade (outros discordam),
[
9
]
[
11
]
e o sítio de Pedra Furada, na
Serra da Capivara
, para o qual têm sido propostas datações que variam de 30 a 50 mil anos AP.
[
13
]
Um trabalho do arqueólogo Juan Schobinger chega a apontar datas de até 100 mil anos para quatro assentamentos na América do Norte, e a historiadora Gabriela Martin, revisando o estudo, admitiu até 300 mil anos.
[
9
]
Isso dataria a migração antes de o corredor de terra seca e livre de gelo ter-se formado em torno de 14-15 mil anos AP, exigindo explicação alternativa para a passagem, mas não a torna impossível, podendo ter havido deslocamentos por mar ou pelo litoral.
[
8
]
[
9
]
Houve muitas mudanças no nível do mar em épocas remotas, e uma ligação intercontinental se formou e desapareceu muitas vezes.
[
12
]
Se a passagem litorânea aconteceu, será difícil provar, pois depois das mudanças no nível do mar as evidências estarão hoje provavelmente sob mais de 100 metros de água.
[
8
]
Seja como for, resta muita insegurança na comunidade científica sobre quando o homem penetrou no continente pela primeira vez, sobre quantos foram, se isso aconteceu de uma só vez ou em ondas sucessivas, e como dali se desenhou o avanço para o sul.
[
6
]
[
8
]
[
9
]
[
10
]
[
15
]
[
16
]
Genética
[
editar
|
editar código
]
Mãe
guajajara
com seu filho
Os vários estudos genéticos que têm sido realizados nos últimos anos trouxeram resultados divergentes, e a origem dos povos ameríndios continua centro de acesa controvérsia. Embora haja crescente opinião de que a povoação americana pode ter se dado antes do que se tem por certo até agora, em torno de 15-13 mil anos AP,
[
8
]
[
9
]
[
10
]
datas anteriores a 30 mil anos são consideradas muito improváveis. Tecnicamente falando, entretanto, se considerarmos a metade oriental da antiga Beríngia como parte da América — sendo efetivamente agora o
Alasca
— o ser humano poderia ter posto seu pé no que hoje é América desde o início deste limite cronológico máximo, e, com mais possibilidade, em torno de 20 mil anos AP.
[
17
]
[
18
]
[
19
]
De acordo com um estudo de 2007 (Tamm
et alii
), focado no
DNA mitocondrial
(aquele que é herdado pela linhagem materna, e o mais usado nas pesquisas sobre evolução humana),
[
10
]
revelou que os nativos do continente americano têm sua ancestralidade materna traçada a um pequeno número de linhagens do leste asiático. De acordo com o estudo, é provável que os antepassados dos ameríndios tenham ficado por um tempo considerável no istmo da
Beríngia
, isolados pelo gelo de progredir para o leste, cujo derretimento posterior teria permitido uma rápida migração para o sul.
[
20
]
Um outro estudo genético recente de DNA autossômico, de 2012 (Reich
et alii
), a partir de centenas de milhares de marcadores genéticos, os ameríndios descendem de pelo menos três correntes provenientes do leste asiático. A grande maioria dos ameríndios descenderia de uma população ancestral única, chamada "primeiros americanos". Contudo, os que falam as línguas
esquimó
do Ártico herdaram quase metade da sua ancestralidade de uma segunda corrente vinda do leste asiático, e os que falam as
línguas na-dene
, no
Canadá
, por sua vez, herdaram a décima parte da sua ancestralidade de uma terceira corrente. O povoamento inicial seguiu uma expansão para o sul, pela costa, com pouco
fluxo genético
posterior, especialmente na América do Sul.
[
21
]
Análises linguísticas corroboram esses resultados, tendo sido encontradas similaridades entre as línguas faladas na
Sibéria
e aquelas faladas no continente americano.
[
22
]
Um estudo genético autossômico de 2015 deu apoio à teoria da origem siberiana dos ameríndios através de uma única onda migratória, porém tendo sido detectada uma ancestralidade antiga compartilhada com os nativos da Austrália e Melanésia, ainda identificável em indígenas da região Amazônica. A migração teria acontecido não antes de 23 mil anos AP, e o isolamento na Beríngia não teria durado mais de 8 mil anos. Foi apontado também que em torno de 13 mil anos AP teriam se formado duas linhagens genéticas principais, uma espalhada por todo o continente, e outra restrita à América do Norte.
[
23
]
Outro estudo, porém, considerou uma origem a partir de duas populações diferentes.
[
24
]
De acordo com o sumário de Goebel, Waters & O'Rourke, aceito por alguns outros autores, "as evidências correntes implicam uma dispersão a partir de uma única população siberiana através da ponte de terra da Beríngia.... não antes de c. 30 mil anos AP (possivelmente depois de 20 mil anos AP), e então uma migração da Beríngia para as Américas em algum momento depois de 16,5 mil anos AP".
[
10
]
[
11
]
[
17
]
Fagundes, Kanitz & Bonatto dizem que uma passagem terrestre só poderia sustentar uma população humana viável depois de 14 mil anos AP,
[
10
]
e segundo Battaglia
et alii
, a entrada na América do Sul deveria ter ocorrido entre 12 e 11 mil anos AP.
[
11
]
De acordo com um estudo genético de 2016, uma pequena população teria adentrado as Américas, seguindo a costa, por volta de 16 mil anos atrás, após um período anterior de isolamento no leste da Beríngia de 2,4 a 9 mil anos antes da separação de populações do leste da Sibéria. Seguindo um rápido movimento através das Américas, um fluxo genético limitado na América do Sul resultou em uma estrutura genética bem marcada, a qual persistiu durante o tempo. Todas as linhagens mitocondriais presentes no estudo estão ausentes dos descendentes de indígenas modernos, sugerindo uma alta taxa de extinção: aplicada uma análise, verificou-se que a colonização europeia causou uma perda substancial de linhagens pré-colombianas.
[
25
]
A arqueologia e a genética também não se acham em perfeita concordância, de modo que a polêmica persiste. O material genético de referência disponível é limitado e divergente, enfraquecendo as conclusões possíveis.
[
8
]
[
9
]
[
10
]
[
11
]
O que parece claro é que os seres humanos foram extremamente rápidos no seu avanço, e em apenas três milênios havia pessoas ocupando todo o continente americano e chegavam à
Terra do Fogo
, seu extremo sul, se adaptando aos mais variados
habitats
e modificando-os sensivelmente.
[
26
]
[
27
]
Ocupação do Brasil
[
editar
|
editar código
]
Ver artigo principal:
História pré-cabralina do Brasil
O
crânio
de Luzia exposto no
Museu Nacional do Brasil
.
A forma de ocupação do atual território brasileiro, como se pode deduzir, é igualmente incerta. No sítio da
Lapa Vermelha
, na região arqueológica de
Lagoa Santa
, em
Minas Gerais
, foi encontrado um
cemitério
datado em pouco mais de 10 mil anos, estudado primeiramente por
Peter Lund
no
século XIX
. Muitas outras pesquisas se sucederam.
Annette Laming-Emperaire
, na década de 1970, encontrou ali o
fóssil
batizado de
Luzia
.
[
15
]
[
16
]
Parte de uma população conhecida como
povo de Lagoa Santa
, Luzia foi tida como a mais antiga brasileira já encontrada, com idade estimada por Feathers
et alii
, a partir de evidências indiretas, em até 16,4 mil anos,
[
28
]
mas há dúvidas sobre essa antiguidade, aceitando-se em geral c. 11,5 mil anos. Pensava-se que Luzia, bem como outros esqueletos ali encontrados, possuísse traços
negroides
típicos de povos da
Austrália
e
Melanésia
, contrastando com o
fenótipo
mongoloide
que define os ameríndios em geral, e apontando para linhagens genéticas alternativas. Achados em vários outros locais de todo o continente, embora não tão antigos, confirmam uma presença precoce do tipo negroide na América, bem antes da chegada dos primeiros africanos no
século XVI
, através da escravidão imposta pela colonização portuguesa.
[
15
]
[
29
]
[
30
]
[
31
]
Contudo, a análise do DNA realizada por pesquisadores da
Universidade de São Paulo
, da
Universidade Harvard
e do
Instituto Max Planck
mostrou que o código genético do povo de Lagoa Santa é semelhante ao de todos os povos indígenas da América e, neste caso, as feições seriam mongoloides.
[
32
]
Crânio escavado no sítio da Pedra Furada.
Na Pedra Furada, como foi dito, as datações podem chegar a 50 mil anos AP, e quatro outros sítios na área foram datados com 18 a 14 mil anos AP.
[
13
]
Achados em
São Raimundo Nonato
, no
Piauí
, dão cronologias que se estendem a até 48 mil anos antes do presente, e especula-se que camadas inferiores já identificadas mas ainda não exploradas poderiam revelar fósseis de até 60 mil anos. O extremo sul do Brasil parece ter sido atingido primeiro pelos
povos umbu
, que deixaram registros datados com 12,7 mil anos de idade. Mas essas datações também têm sido questionadas.
[
8
]
[
9
]
[
15
]
[
16
]
[
26
]
[
31
]
[
33
]
O Brasil, ao ser formado pela migração de ameríndios, africanos e europeus (a partir do século XVI) e asiáticos (a partir do século XX) tornou-se um ponto de "reencontro" dessas pessoas que, apesar de terem a mesma origem ancestral, ficaram separadas durante milênios devido às migrações para diferentes partes do mundo. Esses milênios de separação criaram diferenças culturais, linguísticas e fenotípicas, em decorrência da adaptação de cada grupo a meios ambientais completamente diferentes. Apesar dessas diferenças serem muitas vezes interpretadas como formadoras de "raças" humanas diferentes, do ponto de vista genético o conceito de raça é infundado.
[
34
]
As sociedades tradicionais
[
editar
|
editar código
]
Ver artigos principais:
Cultura indígena do Brasil
,
Arte indígena brasileira
,
Jogos dos Povos Indígenas
,
Línguas indígenas do Brasil
,
Música indígena brasileira
,
Arte plumária dos índios brasileiros
, e
Mitologia guarani
Diversidade e unidade
[
editar
|
editar código
]
Pontas de flecha em pedra lascada da
cultura umbu
, a primeira que deixou registros conhecidos no sul do Brasil
Peça de pedra polida em forma de peixe da cultura
Sambaqui
Como base do entendimento sobre a cultura indígena é preciso saber que não há uma cultura indígena unificada. Cada povo ao longo de milênios desenvolveu modos próprios de compreender e de se relacionar com o mundo, que se expressam em tradições religiosas, artesanato, músicas, hábitos sociais e festejos peculiares, entre outros aspectos, e entrar em detalhes sobre cada
etnia
e cada grupo seria impossível no escopo deste artigo.
[
35
]
[
36
]
[
37
]
[
38
]
As descrições quinhentistas e seiscentistas sobre o modo de vida dos indígenas brasileiros foram feitas pelos colonizadores, seus relatos tratam em geral dos povos
tupis
, e são limitados em muitos aspectos. Sendo culturas que nunca haviam entrado em contato, houve muita incompreensão e imprecisão de parte dos primeiros observadores.
[
39
]
Até onde se sabe, viviam uma vida basicamente de
caçadores-coletores
nômades
, com uma
cultura material
reduzida a armas e ferramentas — sobrevivendo grande acervo de pontas de flecha e lança, machados e outros artefatos em
pedra lascada
e osso — formas de sepultamento e apetrechos pessoais, incluindo adornos corporais com conchas, pedras, sementes, etc. Aos poucos aparecem objetos em
pedra polida
de progressiva sofisticação,
registros rupestres
e logo artefatos em
cerâmica
e pedra esculpida (estes, raros), além de evidências de práticas agrícolas, indicando algum grau de
sedentarização
, definindo o modelo abaixo descrito, que corresponde, numa grande generalização, à provável realidade dos indígenas brasileiros no
século XVI
. Mas esta evolução não foi linear, e os diferentes povos foram encontrados pelos colonizadores vivendo variadas formas de cultura, uma diversidade que perdura até hoje e continua em transformação. Nenhuma das atuais etnias do Brasil ainda conserva sua cultura como era no tempo do Descobrimento. A despeito dessas diferenças, há também características básicas comuns.
[
11
]
[
40
]
[
41
]
[
42
]
[
43
]
O Portal Brasil, com dados do Censo de 2010, indica que ainda vivem no país mais de 300 etnias, que falam mais de 270 línguas, mas esses números variam conforme os critérios utilizados.
[
44
]
O
Ministério da Justiça
, por exemplo, apontava cerca de 218 etnias e 180 línguas em 2007.
[
45
]
[
46
]
Essa riqueza linguística deixou grande contribuição à cultura nacional em nomes de pessoas e lugares, como
Curitiba
,
Piauí
, Ubirajara e Iracema, em nomes de plantas ou animais como caju, jacaré, abacaxi, tatu.
[
47
]
O número de vocábulos tupis incorporados ao português do Brasil é alto, alcançando, segundo estimativas, o número de 20 mil palavras.
[
48
]
Organização da aldeia e sustento
[
editar
|
editar código
]
Uma aldeia típica do
Alto Xingu
Uma aldeia com um sistema de paliçadas para defesa, gravura de
Hans Staden
, 1557
Beiju servido sobre folhas de bananeira
As comunidades viviam em
tribos
, uma entidade organizacional complexa composta de várias aldeias ligadas por parentesco e por interesses comuns. Cada aldeia consistia de um grupo de habitações coletivas, as chamadas
ocas
ou malocas, dispostas em relação a uma praça que podia ser o centro ou não, e que era destinada a atividades comunitárias como celebrações, rituais, assembleias e outras. No centro da praça podia haver uma oca destinada a atividades exclusivamente masculinas. Em cada habitação moravam muitos casais com suas famílias, podendo abrigar de 50 a 200 indivíduos, e em muitos casos, bem mais. As ocas eram construídas com um arcabouço de madeira inteiramente fechado com palha, deixando de uma a três aberturas para circulação.
[
39
]
Em geral eram estruturas alongadas e altas, mas podiam assumir variadas formas e tamanhos, e algumas tribos, como os
marubo
e os
ianomâmis
, construíam apenas uma, onde residiam todas as pessoas da aldeia.
[
49
]
A maior parte da vida familiar se desenvolvia no interior das ocas, que possuíam divisões internas mínimas ou nenhuma. Com esta conformação, nada podia ser segredo para ninguém e tudo era feito à vista de todos, inclusive o intercurso sexual dos casais. À noite acendiam fogueiras e dormiam em redes. Uma descrição de
Pero de Magalhães Gândavo
, corroborada por outros cronistas, assim mostra o cotidiano no interior das habitações: "Em cada casa vivem todos muito conformes, sem haver nunca entre eles nenhumas diferenças: antes são todos amigos uns dos outros, que o que é de um é todos, e sempre de qualquer coisa que um coma, por pequena que seja, todos os circunstantes hão de participar dela".
Jean de Léry
relatou que "mostram os selvagens sua caridade natural presenteando-se diariamente uns aos outros com veações, peixes, frutas e outros bens do país, e prezam de tal forma essa virtude que morreriam de vergonha se vissem o vizinho sofrer falta do que possuem".
Florestan Fernandes
acrescentou: "O mesmo padrão básico de cooperação vicinal aplicava-se às relações dos membros das malocas que faziam parte de um grupo social. Os produtos da caça, da pesca, da coleta e das atividades agrícolas pertenciam à parentela que os conseguisse".
[
39
]
Quando a aldeia ficava próxima de inimigos, era cercada por
paliçadas
de troncos de árvores. Entre as paliçadas eram cavados fossos disfarçados com ramos e folhas, e, no fundo, eram fincadas estacas pontiagudas. Algumas tribos, como os
aimorés
, não construíam aldeias. Simplesmente limpavam uma área e dormiam debaixo das árvores, mantendo, à noite, fogueiras acesas.
[
50
]
Outros, como os
tucano
, organizavam-se em núcleos familiares mais ou menos independentes, estabelecendo aldeias e habitações pequenas.
[
51
]
Viviam da caça, da pesca e da
agricultura de subsistência
, mudando periodicamente a instalação das aldeias conforme o declínio dos
recursos naturais
disponíveis no entorno. O abandono de áreas exploradas possibilitava sua recuperação natural.
[
40
]
[
52
]
Como precisavam de poucos bens materiais, e obtinham tudo diretamente de uma Natureza exuberante, a
pobreza
era desconhecida no cotidiano, sempre havia o bastante para todos viverem felizes e saudáveis, com uma cultura fortemente baseada na
troca
e na distribuição equitativa de excedentes. Carências e fome só ocorriam em situações de crise geral, como nas
epidemias
, que despovoavam as aldeias desestruturando suas cadeias produtivas, ou nas secas, que afetavam negativamente o ambiente de grandes regiões.
[
40
]
[
53
]
Tinham amplo conhecimento da produção de bebidas fermentadas a partir de tubérculos, raízes, folhas, sementes e frutos como o milho, mandioca, batata-doce, buriti, caju, amendoim, banana, ananás.
[
54
]
Deixaram forte herança na culinária brasileira, com pratos à base de mandioca e milho, tais como a
pamonha
e o
beiju
, e também com o guaraná, palmito, batata-doce, cará, pinhão, cacau, amendoim, caruru, serralha, mamão, araçá e caju, embora haja dezenas de outros hoje pouco comuns ou de conhecimento apenas regional, como o abajeru, apé, araticum, azamboa, bacaba, bacupari, camboim, cambucá, curuanha, curuiri, guti, grumixama, guapuronga, mocurí, mundururu, murici, ubucaba e umari. Outros vegetais introduzidos pelos indígenas foram fibras como o algodão, o tucum, gramíneas, bambus e o guaratá bravo para fabrico de tecidos, ornamentos e cestaria; para fazer vassouras, a piaçava; gêneros de abóboras para produzir
cabaças
, usadas para armazenar água ou farinha. Dos alimentos derivados de animais, destacam-se os de tartarugas e seus ovos, como o arabu, o abunã, o mujanguê e o paxicá; de peixes, como a
paçoca
e o
moquém
(também podem ser de outros animais), o
piracuí
, a
moqueca
e a
mixira
.
[
47
]
[
55
]
Estrutura social e familiar
[
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]
Debret
:
Família de chefe
camacã
se preparando para um festejo
, c. 1820-1830
Índia
ianomâmi
em sua rede tecendo uma cesta, tendo ao regaço seu filho pequeno
Suas sociedades eram comunais, sem
propriedade privada
em larga escala, bastante igualitárias e descentralizadas, ainda que
estratificadas
, com papéis sociais nítidos e excludentes, com divisão de trabalho e
status
em moldes tradicionais, embora algumas culturas fossem bastante livres neste aspecto, permitindo grandes intercâmbios de funções. Lideranças ou outras funções de prestígio às vezes eram transmitidas em caráter hereditário,
[
40
]
[
52
]
[
56
]
mas em geral os critérios decisivos eram a competência, o prestígio e o carisma pessoal.
[
57
]
Costumavam venerar os ancestrais e tinham respeito pela autoridade e sabedoria dos líderes, dos anciãos e dos
pajés
, que se responsabilizavam pelas tarefas administrativas superiores da tribo, incluindo a aplicação da Justiça e a condução de ritos e festejos coletivos.
[
40
]
[
53
]
[
58
]
As tribos mantinham-se coesas for fortes laços de parentesco e reciprocidade.
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40
]
[
57
]
O poder era exercido principalmente através da persuasão e da cortesia, de forma colegiada entre os maiorais, os pajés e anciãos, sendo raras as decisões autocráticas do líder principal salvo em emergências coletivas; podia envolver oferta de presentes e outras benesses ao grupo, e líderes tirânicos não permaneciam muito tempo na função. Para que pudessem exercer sua generosidade, os líderes recebiam serviços e bens diversos da comunidade.
[
57
]
Seu contato com outras tribos, mediado geralmente por essa elite, se dava através de relações de comércio, cortesia, comemoração, ritual, cooperação, parentesco ou afinidade, aliança e conflito.
[
52
]
[
59
]
[
60
]
Guerras entre indígenas foram comuns antigamente, se registram ciclos de alternância de poder entre vários cacicados poderosos ao longo dos séculos.
[
52
]
Os homens cuidavam da guerra, da caça, da pesca, da liderança tribal e relações externas, da construção das estruturas físicas da aldeia, das canoas e armas, de certos tipos de arte e ornamentos corporais, da produção do fogo, dos ritos
xamânicos
(que incluíam práticas medicinais) e da derrubada das matas para as lavouras. Às mulheres cabia o plantio, a colheita, o preparo de alimentos, a fabricação de utensílios domésticos, tecidos e adornos, a preservação do fogo, a limpeza e organização das ocas, a criação de animais, o cuidado inicial da prole e dos mais velhos, e colaboravam na caça e na pesca coletando os animais. Sua sociedade impunha um pesado fardo às mulheres em múltiplos trabalhos, alguns muito pesados, mas delas dependia parte essencial do sustento da tribo e desempenhavam um papel fundamental na localização do homem no tecido social e na preservação do seu conforto pessoal, a ponto de o padre
José de Anchieta
dizer que se um homem não tivesse mulher era um pobre coitado. A educação das crianças era compartilhada por todos os habitantes da aldeia, e estimulava-se a autonomia. Certas atividades podiam ser discriminadas por idade. Não havia
escravidão
para obtenção de mão de obra, embora fizessem prisioneiros de guerra. Para trabalhos de grande vulto o sistema do mutirão era a prática usual.
[
39
]
[
40
]
[
56
]
A família podia ser
monogâmica
ou
poligâmica
, com predomínio da
poliginia
. O casamento não era uma ligação perene nem muito sólida, o
divórcio
era frequente e fácil, e os maridos podiam usar as mulheres como moeda de troca. O relacionamento entre as várias esposas de um mesmo homem podia gerar atritos e ciúmes, especialmente se havia uma predileta, mas em geral era cordial e respeitoso. Em muitas tribos o casamento era um complexo
rito de passagem
que exigia o sacrifício de um prisioneiro de guerra, quando o homem trocava de nome e podia então constituir família.
[
39
]
Havia muitas uniões consanguíneas, fortalecendo a unidade dos clãs e as redes de reciprocidade que asseguravam a manutenção da ordem e da vida comunitária em larga escala.
[
39
]
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40
]
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57
]
Maus tratos de homens sobre esposas e filhos eram comuns e aceitos socialmente, entendidos como assunto privado; em muitas tribos pais e mães tinham direito de vida e morte sobre seus dependentes.
[
57
]
A mãe amamentava o filho por vários anos, caso não tivesse outro no período. A criança pequena estava sempre acompanhada, e antes de andar frequentemente ia carregada em várias atividades adultas, incluindo a lavoura. Se fosse menino, o pai lhe ensinava logo cedo a manejar o arco e a flecha, a construir balaios e outras lidas. Quando menina, a mãe a introduzia no mister de fiar, tecer redes e fabricar adornos.
[
50
]
[
56
]
Rituais solenes de passagem, conduzidos por xamãs ou pajés, marcavam as diferentes etapas do crescimento desde o nascimento até a morte, e eram celebrados por toda a tribo com grande aparato.
[
40
]
[
58
]
[
61
]
[
62
]
Pessoas com deficiência ou muito idosas podiam ser abandonadas, mortas ou podiam solicitar
eutanásia
.
[
57
]
Tradições, crenças, conhecimentos e valores
[
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]
Urna funerária marajoara,
Museu Americano de História Natural
A vida de cada indivíduo era programada em linhas gerais desde antes do nascimento pela estrutura tradicional e relativamente fixa de suas culturas, com normas sociais mantidas sem grande modificação desde tempos imemoriais. Muitas sociedades eram profundamente ritualizadas, desenrolando o tecido de suas vidas ao comando de
mitos
e crenças diversas, que cercavam certas atividades de
tabus
invioláveis e davam instruções para muitos atos cotidianos.
[
61
]
[
63
]
[
64
]
No entanto, variações e mudanças existiram ao longo do tempo, cronistas antigos informam que na ocorrência de uma situação inesperada ou desconhecida, costumava-se convocar um conselho tribal para analisar o fato novo. Se ele pudesse ser harmonizado às tradições, era incorporado ao cânone dos costumes e imediatamente se tornava regra geral, mas apenas um voto contrário na assembleia podia levar à sua rejeição.
[
39
]
Com o passar do tempo ocorreram muitos intercâmbios entre povos diferentes, em particular com os colonizadores, e essa evolução progride ainda hoje, sendo de fato culturas vivas e dinâmicas, mesmo que baseadas em tradições antigas.
[
37
]
[
52
]
[
60
]
Pouco se sabe sobre suas antigas crenças religiosas senão através de interpretações distorcidas transmitidas pelos colonizadores, para os quais nos primeiros tempos parecia que não possuíam nenhuma ideia de
Deus
.
[
61
]
[
65
]
[
66
]
Nas palavras de Hans Alfred Trein, "a inexistência de uma formação social de
Estado
foi interpretada como carência civilizatória, da mesma forma como a inexistência de um Deus e de um discurso
teológico
foi interpretada como carência de religião".
[
66
]
Logo se percebeu que eles mantinham sim muitos ritos e crenças religiosos, a ideia do divino era de fato generalizada, mas com muitas variações em seu significado.
[
66
]
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67
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68
]
Nas cosmovisões indígenas é comum uma noção de tempo não linear, em que o universo não tem uma origem e fim definidos e os tempos se confundem. Muitas tribos acreditavam em um deus supremo, mas este deus podia ter a função única de criar o universo, deixando-o depois sob a responsabilidade de deuses secundários.
[
64
]
[
65
]
[
66
]
[
68
]
Às vezes, porém, a origem do mundo é inteiramente desconhecida e ele já aparece pronto nas suas lendas de criação, podendo então destacar-se a figura de um herói sábio e civilizador, que podia ser algum tipo de super-homem ou alguma entidade divina, seres benevolentes que organizam e instruem a humanidade e lhe concedem dádivas valiosas. Em muitas tradições a humanidade nasce de um animal mitológico poderoso. Por outro lado, cosmogonias com um par (às vezes antagônico) ou uma coletividade de criadores primevos também são comuns.
[
66
]
[
69
]
Pajé guarani
Funeral dos
bororos
, registrado por
Wilhelm Kuhnert
(1865–1926)
Vários animais, plantas, seres mitológicos e a própria Terra e seus elementos em todas as culturas foram variavelmente deificados (
animismo
), ou sacralizados, ou personificados, e em muitas comunidades cultivava-se uma identificação
panteísta
de um poder divino insondável com a Natureza e os homens. Para eles o mundo visível era apenas um de muitos mundos paralelos, que em certos aspectos ou momentos podiam se tornar intercomunicantes.
[
63
]
[
62
]
Uma ideia de um
paraíso
pós-morte, a "
terra sem males
" como o chamam os
guaranis
, reservada aos bons e corajosos, era recorrente,
[
70
]
[
71
]
[
72
]
e praticavam-se elaborados rituais de sepultamento dos mortos, bem como para preservar a memória de ancestrais e dos fundadores míticos dos clãs. Mas suas religiões não eram
dogmáticas
, não havia uma
liturgia
imutável, nem escrituras sagradas, não ofereciam vítimas sacrificiais ao seus deuses e não praticavam o
proselitismo
religioso.
[
62
]
Acreditavam em diversos tipos de demônios e espíritos da floresta, como o
Curupira
, um protetor dos animais, capazes de causar dano às pessoas, exigindo ser aplacados com ritos ou presentes. Os mediadores por excelência entre o plano divino e humano eram os
pajés
ou
xamãs
, que eram também, junto com os anciãos, os principais guardiões e transmissores de suas tradições. Mas havia algumas tribos sem pajés e os deuses, espíritos e antepassados podiam se comunicar com os humanos comuns através de animais, sonhos, intuições e visões proféticas. O uso de substâncias
alucinógenas
,
tabaco
e beberagens
embriagantes
era generalizado, embora sujeito a regras precisas, para fazer a ponte para o mundo invisível, para relembrar tradições e os antepassados, selar pactos entre as tribos ou renovar a união interna da comunidade.
[
40
]
[
51
]
[
65
]
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66
]
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68
]
[
62
]
[
73
]
[
74
]
Diversas de suas lendas se tornaram populares entre não-indígenas, enriquecendo os
folclores
regionais, como as lendas do
Boto
, da
Boitatá
, da
Iara
, do
Uirapuru
e do Curupira,
[
75
]
mas as mitologias indígenas geram também grande interesse acadêmico, e a partir de estudos de
Claude Lévi-Strauss
passou-se a perceber uma recorrência de temas frequentes em seus mitos e cosmologias que são comuns à cultura ocidental, podendo por isso ser valiosas vias de comunicação intercultural. No sumário do
Instituto Socioambiental
, esse corpo de símbolos enfatiza
"[...] a reflexão sobre oposições, tais como a de natureza/cultura; vida/morte; homem/mulher; particular/geral; identidade/alteridade. As mitologias e as cosmologias indígenas tratam, portanto, de temas com que se preocupam todos os homens, com menor ou maior grau de elaboração, expressão ou consciência. São temas que remetem à essência do que significa ser humano e estar no mundo. Por isto mesmo, apesar do estranhamento inicial trazido por signos desconhecidos - que carregam concepções inesperadas, articuladas a teorias cuja tradução escapa à primeira aproximação - a comunicação é possível e se dá não só na pesquisa e na divulgação, como também fascina e desafia".
[
63
]
Pictograma
na
Serra da Capivara
mostrando um ritual envolvendo uma árvore
Desenvolveram vários conhecimentos astronômicos e científicos, associando observações dos astros e do
meio ambiente
aos ciclos de vida da comunidade e às suas crenças religiosas, mas muito pouco se sabe sobre isso. Na descrição do etnoastrônomo Germano Bruno Afonso, "os índios e os povos antigos não faziam
astronomia
só por fazer. Tudo tinha uma razão. Além da parte prática, com finalidade de orientação — os
pontos cardeais
— havia toda uma parte religiosa, de ritual, de culto aos mortos, de fertilidade etc., que também era ligada à astronomia. Por exemplo, para os tupi-guarani cada um dos pontos cardeais representa o domínio de um deus".
[
76
]
O
Cruzeiro do Sul
era a constelação mais conhecida, usada como uma referência para orientação geográfica.
[
77
]
Sobrevivem relatos históricos sugestivos, como o do
missionário
francês
Claude d'Abbeville
: "Os tupinambá atribuem (corretamente) à Lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem muito bem as duas marés cheias que se verificam na
lua cheia
e na
lua nova
ou poucos dias depois". Vários mitos relacionam o fenômeno da
pororoca
às
fases da Lua
, o que é também correto, muitas tribos usavam formas de
relógios solares
(gnômons), e contavam o tempo através do
movimento aparente do Sol
.
[
77
]
Astros e constelações aparecem em pictogramas rupestres, e são personificados e divinizados em suas tradições imemoriais, atribuindo-se-lhes poderes maravilhosos e até comportamentos emocionais. Guerreiros ou personagens famosos podiam ser transformados em estrelas e constelações, ou mesmo em animais ou plantas sobrenaturais.
[
77
]
[
78
]
[
79
]
[
80
]
[
81
]
No célebre mito da
mandioca
, por exemplo, em versão recolhida por
Couto de Magalhães
, a planta, que é vital para o sustento indígena, nasce do corpo de uma menina morta.
[
82
]
Para os
tupi-guarani
, se
Jaci
(a Lua), gostasse de alguma menina e a quisesse ter por companhia, a transformava em estrela. Por outro lado,
eclipses
e
cometas
, aparições inesperadas, fora da ordem natural que concebiam, costumavam espalhar o terror entre eles.
[
83
]
Estando em contato íntimo com a Natureza, se tornaram profundos conhecedores de seus segredos e recursos, ainda que inúmeros fenômenos naturais fossem explicados através de razões sobrenaturais.
[
81
]
[
83
]
Plantavam de acordo com as estações e as fases da Lua, conheciam relações entre
mudanças climáticas
e mudanças na
biodiversidade
, e usavam o
controle biológico
de pragas agrícolas.
[
77
]
Muitas etnias mantinham costumes que chocaram os colonizadores, como o
canibalismo
, o
incesto
, o
infanticídio
neonatal
[
84
]
e a
feitiçaria
, embora deva-se assinalar que estavam inseridos em um contexto cultural coerente,
[
40
]
[
85
]
[
86
]
mas foram também frequentes os relatos sobre sua generosidade, sua habilidade guerreira, seus valores de honra e coragem, notabilizando-se como heróis, por exemplo,
Filipe Camarão
e
Sepé Tiaraju
.
[
40
]
[
87
]
[
88
]
[
89
]
D'Abbeville registrou no
século XVI
: "As leis da cavalaria, no tempo em que floresceu na Europa, não excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvagens brasileiros. Jamais o ponto de honra foi respeitado como entre estes bárbaros, que não eram menos galhardos e nobres do que esses outros bárbaros, godos e árabes, que fundaram a cavalaria".
[
90
]
Duelos
por questões de honra eram comuns.
[
57
]
Uma guerra naval em gravura de
Theodor de Bry
Dança coletiva em torno dos troncos que representam os mortos homenageados no
Quarup
, um dos mais importantes festejos intergrupais da região do
Xingu
A guerra era frequente e muitas vezes ritualizada. Podia atender à necessidade de resolver rivalidades e delimitar poder entre as tribos, mas suas principais motivações eram a vingança de ofensas e a captura de prisioneiros destinados ao sacrifício por ocasião do matrimônio dos guerreiros. Até a chegada do colonizador parecem ter sido muito raras as guerras de conquista, não conheciam o cavalo nem armas de fogo ou equipamentos bélicos sofisticados, e suas armas principais eram o tacape, o arco e a flecha, pedras de arremesso, a lança e o escudo, instrumentos típicos do combate corpo-a-corpo, não desprezavam o uso de golpes com mãos nuas, arranhamentos com as unhas e mordidas, e eram hábeis na guerrilha, no combate naval e na emboscada. Matar muitos inimigos e fazer prisioneiros acrescentava grande prestígio e fazia parte do seu sistema de afirmação da masculinidade. Os prisioneiros de guerra não precisavam ficar confinados porque a fuga representaria grande vergonha e desonra. Eram tratados familiarmente como se fossem membros da aldeia, e eram bem alimentados e cuidados até o momento de serem mortos.
[
39
]
[
57
]
[
89
]
José de Anchieta
testemunhou: "Naturalmente são inclinados a matar, mas não são cruéis; porque ordinariamente não dão nenhum tormento aos inimigos, porque se os não matam nos conflitos da guerra, depois tratam-nos muito bem, e contentam-se com lhes quebrar a cabeça com um pau, que é morte muito fácil. [...] Se de alguma crueldade usam, ainda que raramente, é com o exemplo dos portugueses e franceses". Apesar dos conflitos frequentes, os relatos de carnificinas extensas intertribais só aparecem depois de avançar a conquista portuguesa, quando mudam todas as relações de poder, as guerras para conquista e escravização se tornam habituais e se formam e caem em sucessão poderosos cacicados.
[
89
]
Também se registram narrativas sobre intensos afetos familiares e sua predisposição a atividades artísticas e festejos,
[
40
]
[
91
]
[
92
]
celebrando regularmente grandes encontros que congregavam enormes grupos, sendo o mais conhecido o
Quarup
, ritual celebrado até hoje que homenageia os mortos importantes, onde se trocam presentes, compartilham refeições elaboradas e experiências de vida, e ocorrem disputas esportivas, cantos, lamentos e danças coletivas.
[
93
]
[
94
]
Muitas vezes cobriam seus corpos com variada ornamentação de plumas, fibras e outros materiais naturais, especialmente em ocasiões de festejo ou cerimônia, mas a nudez era corriqueira e não causava nenhuma vergonha. Mas vivendo na floresta, cheia de animais agressivos e obstáculos físicos, muitas tribos usavam no cotidiano
tapa-sexos
, protetores penianos ou tangas de tecido, que tinham a função de proteger os genitais contra acidentes ou ataques de insetos. Mantas de tecido para cobrir o corpo eram raras.
[
53
]
[
95
]
Dispensavam grandes cuidados ao corpo e à higiene pessoal. Deles vem o costume moderno do banho diário.
[
96
]
Mas pouco se sabe de sua
sexualidade
e seu significado sociocultural ou afetivo. Pareciam ter uma atitude bastante livre quanto a ela em vários aspectos. A
virgindade
era pouco valorizada e costumavam ser ativos sexualmente antes do casamento, embora tabus interditassem para o sexo os
pré-púberes
e as mulheres em
período menstrual
e no
puerpério
. Em muitas tribos eram aceitos, por exemplo, o
sexo grupal
, algumas formas de
incesto
, o
adultério
e a
homossexualidade
, e homens podiam oferecer os favores sexuais de suas esposas a visitantes ilustres como forma de cortesia. Mesmo o sexo e a higiene eram praticados à vista de quem estivesse perto. É de notar que as ocas em que viviam não tinham divisões internas.
[
57
]
[
91
]
[
97
]
Por outro lado, tinham suas próprias convenções restritivas que, se violadas, acarretavam vergonha,
ostracismo
ou outras sanções severas que iam de castigos físicos até o
banimento
ou a
pena de morte
. Alguns exemplos são ilustrativos: Xamãs suspeitos de praticar feitiçaria contra membros de sua tribo podiam ser executados;
[
57
]
[
86
]
se um homem se mostrasse covarde era rejeitado pelas esposas; revelação de segredos de
iniciação
podia significar a morte,
[
57
]
e em algumas tribos se mulheres profanassem a Casa das Flautas, reservada apenas aos homens, sua lei exigia que fossem punidas com um
estupro
coletivo.
[
38
]
Os crimes não prescreviam pelo tempo e justificações como embriaguez, descontrole emocional e a coação não costumavam ser aceitas como atenuantes ou escusas de responsabilidade.
[
57
]
[
86
]
Relação com o ambiente e a terra
[
editar
|
editar código
]
Família em atividades à beira de um rio
Em muitos aspectos de sua vida a Natureza se fazia presente, e de fato, como se viu, sua sobrevivência dependia dela em regime diário.
[
40
]
[
98
]
Mantinham animais de estimação;
[
99
]
muitas tribos e
clãs
remontavam suas
genealogias
a animais míticos; vários animais e plantas participavam de inúmeras lendas, eram tidos como deuses ou mágicos, deviam ser propiciados com oferendas e cerimônias, e eram reproduzidos em sua arte.
[
100
]
[
101
]
Embora não tivessem uma
consciência ecológica
nos moldes ocidentais, viam em geral a Criação como uma obra divina, a vida como toda inter-relacionada, e a Terra como viva e sagrada, e mesmo que tirassem proveito e sustento do ambiente, mantinham um modelo de vida caracterizado pela
sustentabilidade
.
[
53
]
[
68
]
[
102
]
Pela fundamental importância que as terras tradicionais têm nas suas culturas, estando intimamente associadas a
mitos fundadores
, hábitos de vida e tradições culturais e sociais, e sendo o local de sepultamento dos venerados ancestrais, sua perda em regra significa a desintegração das sociedades.
[
42
]
[
103
]
Sua sobrevivência também é ameaçada porque muitos animais e plantas que lhes eram importantes de várias maneiras estão desaparecendo, e a legislação nacional proíbe a predação e captura de
espécies nativas
. Para os indígenas se abre exceção, desde que o uso se destine à alimentação e a funções tradicionais, mas isso impede que usem produtos naturais, como penas de aves, em artesanato com objetivo comercial, que para muitas tribos já é importante fonte de renda.
[
104
]
[
105
]
Cultura e arte
[
editar
|
editar código
]
Mapa etnográfico da América do Sul, apresentando as principais
famílias linguísticas
Como já foi mencionado, originalmente a educação nas comunidades era dada de maneira coletiva e tradicional, em grande parte baseada na
oralidade
, já que nenhuma das sociedades indígenas brasileiras possuiu
sistemas de escrita
conhecidos. Calcula-se que antes de Cabral eram faladas cerca de 1 300 línguas nativas. Hoje seu número é muito menor. Não se sabe exatamente qual seja, devido à variação nos critérios utilizados, mas pode ainda haver cerca de 270 línguas vivas. O número oficial do IBGE é de 274. Muitas, porém, estão em rápido declínio, com apenas poucos falantes. Poucas foram estudadas em profundidade, apenas 9% delas tem descrição completa, com
gramática
, coletânea de textos e
dicionário
. Elas se dividem em dois grandes
troncos linguísticos
, o
tupi
e o
macro-jê
. No primeiro se incluem, por exemplo, as línguas
tupi-guarani
, monde,
tupari
,
juruna
e
mundurucu
, e no segundo, jê,
bororo
e botocudo. Também existem diversos grupos falantes de
línguas isoladas
, sem afinidades próximas com quaisquer outras línguas, como o
ticuna
,
trumai
e
jabuti
. Além disso, há uma infinidade de
dialetos
e variações das línguas principais. O ticuna, o
guarani-caiouás
e o
Caingangue
são as que têm maior número de falantes.
[
106
]
[
107
]
[
108
]
Pinturas rupestres
no
Parque Nacional Serra da Capivara
, declarado
Patrimônio Mundial
pela
Unesco
em vista de sua importância arqueológica, possuindo 912 sítios identificados e 657 com pinturas e gravuras.
[
109
]
Vestes cerimoniais e cestaria dos
aparai
.
Memorial dos Povos Indígenas
Têxtil com padronagem geométrica típica dos
tiriós
-
caxuianas
. Memorial dos Povos Indígenas
Apesar da ausência de sistemas de escrita, muitos grupos desenvolveram uma rica diversidade de sinais e outras formas gráficas, de variado grau de complexidade, repetidas através de gerações e que, sabe-se, eram portadoras de significados específicos, uma forma de comunicação diferente dos sistemas de escrita formais do ocidente, embora seja comparável à sua arte. Ainda que seu significado exato permaneça com frequência mal compreendido, especialmente nos documentos arqueológicos, esses sinais e formas visuais, às vezes arranjados em cenas narrativas ao lado de figuras de seres vivos, são documentos históricos importantes para a reconstituição de suas vidas.
Pictogramas
e
gravuras rupestres
que sobrevivem em sítios arqueológicos em todo o Brasil dão amplo testemunho de mentes capazes de criar mensagens complexas, em que se mesclam plasticidade e significados.
[
37
]
[
40
]
[
110
]
Na descrição de Irene Machado, pesquisadora do
CNPq
, "as inscrições rupestres.... constituem um legado capaz de desfazer equívocos e desvendar redes de possibilidades. Porque constroem sistemas de escrita por meio de signos notacionais, estão muito mais próximas da criação científica e artística do que da mera comunicação instrumental".
[
110
]
Grande parte deste acervo arqueológico já desapareceu ou está ameaçado pelo avanço da civilização, pelo desconhecimento do seu valor e pelo
vandalismo
premeditado.
[
111
]
[
112
]
[
113
]
Mesmo que muito já tenha sido perdido, a
cultura material
e
imaterial
dos povos indígenas brasileiros que sobrevive até o presente é riquíssima em conjunto, embora possa variar muito entre os casos individuais. Algumas culturas se caracterizam pela grande fartura de apetrechos e objetos decorados, organizam ritos suntuosos, apreciam generosa pintura corporal; outras são mais adeptas da simplicidade visual, mas podem desenvolver por exemplo grandes habilidades musicais, ter substantiva tradição oral e falar linguagens sutis e sofisticadas. Entre as especialidades que cultivaram se destacam a
música
, a
dança
, a
cerâmica
, a
tecelagem
, a
cestaria
, a
pintura corporal
e a
arte plumária
. Essa produção tinha papel central na vida das tribos, sendo o veículo de ideias, conceitos religiosos e símbolos coletivos, além de servir como expressão de beleza e habilidade. De fato, os melhores criadores eram prestigiados.
[
100
]
[
36
]
[
40
]
[
41
]
[
42
]
[
101
]
[
114
]
Mas não havia a figura do "
artista
"; todos eram hábeis em várias formas de arte. Uma dedicação especializada e exclusiva, típica da sociedade ocidental, era visto como sintoma de um desequilíbrio espiritual ou uma obsessão, pois as atividades vitais deviam ser distribuídas equilibradamente e a produção de objetos simbólicos, que compunham grande parte de sua cultura material, estava sob a influência de poderes espirituais, e devia ser restrita a ocasiões ritualizadas. O próprio processamento das matérias-primas usadas para a confecção dos artefatos era carregado de ritualidade e sujeito a leis precisas, que variavam entre cada tribo.
[
115
]
Para os
palicures
, por exemplo, as penas vermelhas das
araras
são assentos de espíritos protetores, por isso usadas em adornos corpóreos, objetos e espaços a fim de afugentar influências malignas.
[
116
]
Entre os
uaianas
, a tintura do
arumã
é a matéria-prima mais carregada de simbolismo, já que a constituição da planta é comparada à dos seres humanos.
[
115
]
O grande
cocar
caiapó
chamado
krokrok ti
simboliza a própria aldeia. No centro vão penas azuis que representam a praça, o local masculino e público por excelência, em torno são enfileiradas penas vermelhas, simbolizando o mundo feminino e doméstico. Penugens brancas de acabamento representam a floresta.
[
117
]
Muitos povos e clãs desenvolveram uma série de padrões geométricos, transmitidos tradicionalmente em cestaria, cerâmica, pintura corporal e tecelagem, que se tornaram marca registrada de cada grupo, possuindo também significados e preservando conhecimentos matemáticos.
[
118
]
Enáuenê-nauê
tocando um instrumento de sopro e ostentando completa ornamentação corporal
A música tinha grande destaque entre as artes, sua origem era tida como divina, sendo recebida através de sonhos. Para eles o som tinha poderes mágicos, estando na base da estruturação do
cosmos
e sendo poderoso instrumento de intervenção deliberada no mundo físico, como por exemplo produzindo curas. Praticamente não se produzia música que não tivesse alguma associação com o sagrado, estando presente em toda parte, especialmente nos grandes festejos, quando era praticada coletivamente.
[
64
]
[
68
]
As cantorias e declamações rituais, que recontavam histórias da tradição, descreviam sonhos proféticos, invocavam espíritos e produziam curas e visões, "cumprem também um papel fisiológico na própria constituição dos estados psíquicos, atualizando a experiência dos eventos míticos", como descreveu a antropóloga Deise Montardo.
[
36
]
A música também incluía canções de amor e saudade, podendo ser impregnadas de intenso lirismo poético.
[
119
]
José Miguel Wisnik
analisou esta importância dizendo que "cantar em conjunto, afinar as vozes, significa entrar em acordo profundo e não visível sobre a intimidade da matéria", produzindo uma identificação e afirmação comunitária contra o mar de sons do mundo manifesto.
[
64
]
Segundo Adriane Salik,
"Nos mitos estavam refletidas questões da origem do seu povo, modo de proceder na vida e sentido de existência, as quais estão intrinsecamente relacionadas com as sonoridades musicais. É a música que estabelece a conexão mito e cosmologia com as artes do corpo: a dança, a plumária e a ornamentação, sendo portadora de sentido, estabelecendo, por conseguinte, uma ponte entre mito e rito.... funcionando como uma 'máquina de transformar verbo em corpo' como diz Menezes Bastos".
[
64
]
Por esses poucos exemplos se percebe a forte importância da arte em suas culturas. Contudo, é preciso advertir que eles não tinham um conceito de "
arte
" como o ocidental, considerando-a uma atividade autônoma; suas atividades criativas eram integradas às funções cotidianas e sua "arte" era em essência utilitária, em grande medida se confundindo com o
artesanato
folclórico
pelas suas características tradicionalistas, passadas de geração em geração.
[
58
]
[
114
]
[
120
]
Esta distinção, que já foi muito usada para desqualificá-la, se tornou, porém, ultrapassada, em vista do amplo reconhecimento atual da cultura indígena material e imaterial como arte efetivamente pelos próprios ocidentais, com riqueza de funções e significados, qualidade estética e níveis de complexidade equiparáveis aos da tradição do ocidente, e muitos museus em todo o mundo possuem preciosas coleções de artefatos indígenas.
[
100
]
[
36
]
[
101
]
Outros modelos de sociedade
[
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]
Cerâmica
tupi-guarani
pré-cabralina, mostrando o típico modelo despojado predominante no Brasil indígena.
Museu da UFRGS
Cerâmica da cultura de Santarém, pré-cabralina.
Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo
O modelo generalista de cultura acima descrito, que define tipicamente uma sociedade pré-histórica inteiramente silvícola e seminômade, é o que por muito tempo foi considerado o padrão comum a todas as culturas autóctones do território brasileiro. Nas últimas décadas, no entanto, uma série de pesquisas vem acumulando evidências de que este modelo não foi o único desenvolvido pelos povos nativos em tempos mais recuados. Várias tradições e lendas têm circulado há séculos sobre supostas "civilizações" ou "cidades perdidas" na Amazônia e outras regiões brasileiras, trazendo relatos sobre
hieróglifos
misteriosos gravados em pedras,
megálitos
, artefatos tecnológicos,
pirâmides
e estruturas urbanas.
[
121
]
[
122
]
[
123
]
Tornaram-se notórios, por exemplo, os casos das "pedras de moinho" de quase 5 m de diâmetro e perfeitamente circulares descritas na
serra da Copaoba
, na Paraíba, pelo
polímata
Kaspar Barlaeus
, da corte do conquistador
Maurício de Nassau
; o do "
menir
" instalado sobre uma enorme pedra esférica descrito no
século XIX
por Adauto Ramos, do
IHGB
, e depois destruído;
[
121
]
o do "
Eldorado
amazônico", um reino fabuloso de riqueza e abundância inimagináveis, e o da "cidade antiquíssima" alegadamente descoberta em 1753 por
bandeirantes
que procuravam as lendárias minas de
Muribeca
, mas que nunca foi reencontrada apesar de muitas buscas. De acordo com o relatório que descreve o local, o famoso
Manuscrito 512
resgatado em 1839 na
Real Livraria Pública da Corte
, a cidade, que parecia abandonada, era grande e organizada. Entrava-se nela por um
arco triunfal
que continha inscrições, e tinha casario regular de alvenaria cercando uma praça quadrada onde havia vários monumentos, incluindo uma "collumna de pedra preta de grandeza extraordinária, e sobre ella huma Estatua de homem ordinário, com huma mao na ilharga esquerda, e o braço direito estendido, mostrando com o dedo index ao Polo do Norte; em cada canto da dita Praça está uma Agulha, a imitação das que uzavão os romanos, mas algumas já maltratados, e partidos como feridas de alguns raios".
[
122
]
Dólmen em Anicuns, Goiás
Megálitos no
Parque Arqueológico do Solstício
.
Se uma parte desse folclore pode ser reflexos distantes e distorcidos de povos civilizados pré-cabralinos reais, deixados na memória coletiva de outros povos que depois os transmitiram aos brancos, a maior parte desses relatos é especulação, fantasia, fraude ou má interpretação de elementos naturais.
[
123
]
[
124
]
No entanto, nem tudo é engano e invenção, e evidências estudadas com metodologia científica atual apoiam antigas tradições orais, mostrando que de fato floresceram culturas material e tecnologicamente mais estruturadas no Brasil. A cerâmica das culturas Santarém e
Marajó
, conhecida e apreciada há bastante tempo, é significativamente mais complexa e tecnicamente avançada do que a da vasta maioria dos outros povos brasileiros, parecendo relacionar-se à de culturas urbanizadas da
Mesoamérica
e da costa sul-americana do Pacífico, embora pouco se saiba sobre suas sociedades.
[
125
]
[
126
]
[
127
]
Menires
,
dólmens
e alinhamentos de pedras apontando para a posição em que o Sol nasce no
solstício
do inverno foram descobertos em Roraima, Goiás, Maranhão e Piauí, Paraná e Santa Catarina.
[
121
]
Tornaram-se bem conhecidos os
megálitos
do
Parque Arqueológico do Solstício
no município de
Calçoene
, no
Amapá
, datados com cerca de 2 mil anos que, se presume, eram utilizados para observações astronômicas.
[
128
]
Mais relevantes são as centenas de
geoglifos
que vêm sendo descobertos em toda a Bacia Amazônia depois do desenvolvimento recente de novas tecnologias para mapeamento aéreo e por satélite, incluindo áreas fora do Brasil, mas concentrados nos estados brasileiros do Acre, Rondônia e Amazonas, numa faixa com uma extensão de cerca de 1 800 km.
[
129
]
[
130
]
Os geoglifos são diferenças detectadas no nível do terreno, de grandes dimensões e formas geométricas regulares, que evidenciam a antiga existência de alterações feitas pelo homem na paisagem através de obras de terraplenagem, escavação ou construção, constituindo vestígios de estruturas como canais, diques, estradas, cultivos agrícolas organizados, arruamentos, alicerces de edifícios urbanos, cemitérios, santuários, etc.
[
129
]
[
131
]
As estruturas geoglíficas encontradas no Brasil são às vezes monumentais, indicando a existência de algumas sociedades muito avançadas. Tradições da região recolhidas no século XVIII diziam que estas áreas haviam sido densamente povoadas no passado. Escavações em diversos sítios têm trazido à luz cerâmicas, ex-votos e outros artefatos com acentuada diversificação estilística de lugar para lugar, o que aponta para povos que tinham uma tradição construtiva em comum mas haviam desenvolvido identidades separadas. Este campo de pesquisa é recente e ainda há pouca informação sobre o funcionamento detalhado dessas sociedades, mas segundo Souza et alii, pela quantidade e amplitude das obras pode-se pensar em sociedades organizadas em nível regional e não somente local, muito estruturadas, hierarquizadas e estáveis, com alta densidade populacional. Grandes construtores, com capacidade de planejamento a longo prazo, viviam em grandes vilas fortificadas com paliçadas e fossos, situadas sobre montes artificiais, às vezes com vários círculos concêntricos de defesas, interligadas por uma rede de estradas. Sua estrutura básica geralmente reflete os atuais aldeamentos indígenas do Xingu, mas em uma escala muito ampliada.
[
129
]
Alguns desses povos aparentemente viviam principalmente da agricultura, e outros viviam principalmente do manejo planejado dos recursos florestais nativos combinado ao cultivo de espécies arbóreas selecionadas. Há evidências de extensa e duradoura domesticação do ambiente nas áreas com geoglifos.
[
132
]
Até 2023, 961 sítios com geoglifos foram descobertos na Amazônia, datados de c. 500 a c. 1 500 d.C.,
[
133
]
com um pico de ocupação nos sítios entre os anos de 1250 e 1500.
[
129
]
Nesta época podem ter vivido até 10 milhões de pessoas na Amazônia, e o desaparecimento dessas sociedades altamente organizadas foi atribuído à chegada dos europeus.
[
132
]
Eles se distribuem por toda a Amazônia, mas de forma muito irregular, com áreas de alta concentração e outras (a grande maioria) onde nenhum foi achado.
[
132
]
Segundo estimativa de Paripato et alii, pode-se esperar encontrar de 10 a 20 mil outros sítios semelhantes.
[
134
]
Segundo a arqueóloga Carolina Levis, da Universidade Federal de Santa Catarina, "há algum tempo, os ecologistas viam a Amazônia como uma vasta floresta intocada, mas agora, combinando vários tipos de vestígios, podemos ver que muitas áreas que hoje são florestas densas já foram antigamente submetidas a extensas obras de engenharia e ao cultivo e domesticação de plantas por sociedades pré-colombianas, dominando técnicas sofisticadas de manejo de terras e plantas, que, em alguns casos, ainda estão presentes no conhecimento e práticas das comunidades atuais".
[
133
]
Contato com os europeus e assimilação à sociedade brasileira
[
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|
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]
Ver artigos principais:
Brasil Colônia
,
Genocídio dos povos indígenas no Brasil
, e
Lista de guerras indígenas no Brasil
Machado em
pedra polida
,
indústria lítica
jê
. Museu da UFRGS
Dança dos
Tarairiú
, óleo sobre tela de
Albert Eckhout
(século XVII). A
Capitania de Pernambuco
foi o berço da escravidão indígena no Brasil.
[
135
]
Uma redução de
tapuias
no
século XIX
, no Brasil central, em aquarela de
Rugendas
As populações pioneiras da América, não encontrando competidores, e tendo uma rica
megafauna
à disposição para caça, floresceram, espalhando-se pelos quatro quadrantes do continente. Alguns grupos chegaram a desenvolver, após muitos milênios, civilizações urbanas letradas de elevada complexidade social e tecnológica, grande poderio militar e riqueza material, realizando ampla transformação da Natureza, como os
maias
e
astecas
.
[
11
]
Os povos que se radicaram no Brasil, por sua vez, semi-isolados pela
cordilheira dos Andes
das culturas mais sofisticadas do Pacífico e da América Central, mantiveram hábitos silvícolas despojados e seminômades, ainda viviam na
pré-história
, e desconheciam tecnologias como a
roda
, o
espelho
ou as
armas de fogo
. Portanto, a
chegada dos europeus em 1500
representou um
choque cultural
enorme.
[
11
]
[
40
]
A superioridade militar, administrativa e tecnológica dos portugueses logo se impôs, e até mesmo a sua arte foi usada em seu favor, sendo notório, por exemplo, o irresistível fascínio que a música ocidental exercia sobre muitos povos, facilitando imenso a
aculturação
. A admiração não foi recíproca. Entendendo o indígena como um ser bruto, quase um animal, que deveria ser domesticado ou derrotado, os portugueses não viam mal no processo colonizador, e de fato muitos acreditavam que a colonização iria salvar o indígena de terríveis erros morais e de sua "pobreza" cultural e material. Mas, na prática, mesmo que a
Igreja Católica
desde o
século XVI
tivesse reconhecido neles a condição de seres humanos, o europeu muitas vezes nem acreditava que possuíssem alma ou intelecto, não exigindo a consideração devida aos homens. Na sua lógica não havia justificativa para que não aceitassem o jugo imposto, pois era para seu próprio bem. Os que não o fizessem espontaneamente, então nada os poderia salvar, pois como eram "apenas bestas", "peças" que podiam ser postas em mercado, estavam entregues à cobiça dos
bandeirantes
e
capitães-do-mato
caçadores de indígenas. Esta mentalidade, predominando, autorizou o massacre que se seguiu, numa época em que a conquista de outros mundos e a subjugação a ferro e fogo de outros povos eram coisa normal e tanto fonte de glória e honra como de lucro e poder. Algumas tribos aceitaram facilmente a dominação portuguesa, mas muitas outras resistiram, passando a ser perseguidas e exterminadas em massa, ou acabavam virando escravas.
[
136
]
[
137
]
[
138
]
[
139
]
Entre as primeiras obras publicadas sobre os povos indígenas brasileiros, no
século XVI
, encontram-se os livros escritos pelo
mercenário
alemão
Hans Staden
, pelo
missionário
francês
Jean de Léry
e pelo
historiador
português
Pero de Magalhães Gândavo
.
[
140
]
Diversas ordens religiosas, em particular os
jesuítas
, participaram da conquista mandando missionários bem preparados que serviram como evangelizadores, pacificadores, professores, médicos e artistas, e supriam necessidades em todas as áreas. Formou-se um sistema de
reduções
, aldeamentos fixos mais ou menos auto-suficientes, semelhantes a vilas europeias, administrados pelos padres com a cooperação dos indígenas. Muitos encontraram ali proteção contra a barbárie que se abatia sobre os povos livres, e religiosos como
Manuel da Nóbrega
e
António Vieira
se notabilizaram empreendendo, através de sua influência política e moral, esforços constantes para protegê-los, dentro do entendimento da cultura dominante. Porém, o preço pago pela proteção foi a perda integral das raízes culturais que distinguiam cada povo, homogeneizando-se a cultura de todos sob o manto do
Catolicismo
e o império da Coroa portuguesa, e transformando-os em pequenos produtores rurais. Comparado ao florescente exemplo da Província Jesuítica do Paraguai e doutras partes da
América espanhola
, o sistema das reduções no Brasil foi bem menos eficiente e organizado, encontrando muitas resistências indígena, mas de qualquer maneira teve um papel importante no processo aculturador e foi a origem de muitas cidades brasileiras,
[
40
]
[
141
]
[
142
]
[
143
]
como
São Miguel das Missões
e
São Nicolau
.
[
144
]
[
145
]
Theodor de Bry:
Ataque de portugueses e tupiniquins às aldeias tupinambás, c. 1592
Debret:
Carga de cavalaria guaicuru
, 1822
Porém, nas últimas décadas, as novas produções históricas têm dado visibilidade a uma outra análise da questão indígena. Sem negar a violência com que muitos europeus os trataram, elas têm passado a ver não apenas uma vítima passiva da colonização europeia, mas também um agente que interferiu e teve papel fundamental no processo de construção da sociedade brasileira moderna. Sem a ajuda dos índios, a própria colonização teria sido impraticável. Índios amistosos comercializavam com os colonos portugueses, fornecendo-lhes víveres e produtos naturais valiosos como madeira, condimentos e substâncias medicinais, e contribuíram mesmo para escravizar e exterminar outros índios, participando das
entradas e bandeiras
, expedições portuguesas que visavam a escravização indígena.
[
146
]
[
147
]
[
148
]
Muitos índios se beneficiaram com a chegada dos portugueses. A vida junto aos brancos parecia atrativa e muitos indígenas abandonavam voluntariamente suas aldeias e iam viver junto deles.
[
149
]
As novas tecnologias trazidas pelos colonizadores e desconhecidas dos índios provocaram uma revolução na vida das tribos. O anzol facilitou enormemente a pesca. O uso do machado de metal diminuiu muito o trabalho dispendido para se cortar coisas. A introdução do cavalo e do gado facilitou deslocamentos, a
aragem
da terra para as lavouras e o transporte de cargas, além de o cavalo favorecer a guerra e a caça, tornando-se afamados cavaleiros os
charrua
e
guaicuru
, por exemplo.
[
150
]
[
151
]
[
152
]
A Primeira Missa no Brasil
, de
Vítor Meireles
, 1860,
Museu Nacional de Belas Artes
. Imagem romântica mostrando uma integração pacífica. Durante o
século XIX
, o
Romantismo
tornou o índio um personagem heroico virtuoso
No
século XIX
, por meio da corrente
romântica
conhecida como
indianismo
, o índio passou a ser descrito no discurso oficial e nas artes eruditas como o "
bom selvagem
". Essa concepção, derivada do
Iluminismo
, via o índio como dono de uma moral pura, vivendo em harmonia com a Natureza, uma vítima indefesa da crueldade europeia. Nesta época literatos e artistas falavam deles como os primogênitos do Brasil, fundamento de uma nova ideia de unidade nacional, uma ideologia sentimental, ufanista e progressista que foi adotada pelo governo em um amplo programa de reformas em vários níveis da vida brasileira, das artes à economia, da política à educação.
[
153
]
[
154
]
No entanto, para os índios, na prática a situação era bem diferente. Mesmo depois de inúmeros regulamentos civis e eclesiásticos desde o
século XVI
tentarem proteger os povos nativos, garantindo os seus
direitos humanos
e os seus direitos às
terras em que habitam
, a sociedade branca de modo geral fazia ouvidos surdos e ainda não os aceitava como iguais. É registrado que o governo tentou várias vezes proibir a escravidão indígena, mas as tentativas despertavam revoltas entre os colonos, que não queriam perder o capital que representavam e a sua força de trabalho. Outras leis contradiziam as que os protegiam, e continuavam a ser considerados judicialmente incapazes, devendo ser
tutelados
pelo Estado, que os confinava em reservas pequenas ou expulsava tribos de suas terras sob pretextos os mais frágeis. Muitos continuavam a ser escravizados, perseguidos e mortos.
[
139
]
[
155
]
[
156
]
[
157
]
No final do processo da colonização, estima-se que a população indígena havia declinado de cerca de 5 milhões para cerca de 600 mil pessoas, vivendo em grande parte em condições de opressão e miséria.
[
155
]
Boa parte da população indígena morreu nas guerras, nas perseguições e na escravidão, mas grande mortalidade se deveu ao contágio de doenças trazidas pelos europeus, contra as quais os índios não tinham
imunidade
, por terem vivido durante milênios isolados de outras populações.
[
158
]
Durante o
século XIX
, com os avanços em
epidemiologia
, começaram a ser documentados casos de brasileiros desencadeando propositalmente epidemias de
varíola
como
arma biológica
contra os índios. Um caso "clássico", segundo antropólogo Mércio Pereira Gomes, é o da vila de
Caxias
, no sul do Maranhão. Por volta de 1816, para conseguir mais terras, fazendeiros resolveram "presentear" os índios
timbira
com roupas de pessoas infectadas pela doença (que normalmente são queimadas para evitar contaminação). Os índios levaram as roupas para as aldeias e, logo, os fazendeiros tinham muito mais terra livre para a criação de gado. Casos similares ocorreram por toda a América do Sul. As "doenças do homem branco" ainda afetam as tribos indígenas, causando muitos óbitos.
[
159
]
Ancestralidade indígena na atual população brasileira
[
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|
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]
Ver artigo principal:
Composição étnica do Brasil
Outra grande parte da população indígena não pereceu, mas foi assimilada pela sociedade brasileira, dando origem a prolífica descendência que, não obstante, já não mais se identifica como "índia".
[
160
]
Gilberto Freyre
, em
Casa-Grande & Senzala
, considerou o elemento indígena como importante formador da identidade social brasileira, principalmente nos primeiros séculos de contato com os europeus, atribuindo um papel essencial às "cunhãs", as mulheres nativas:
"Para a formidável tarefa de colonizar uma extensão como o Brasil, teve Portugal de valer-se no
século XVI
do resto de homens que lhe deixara a aventura da Índia. E não seria com esse sobejo de gente, quase toda miúda, em grande parte plebeia, além do mais,
moçárabe
, isto é, com a consciência de raça ainda mais fraca que nos portugueses fidalgos ou nos do norte, que se estabeleceria na América um domínio português exclusivamente branco ou rigorosamente europeu. A transigência com o elemento nativo se impunha à política colonial portuguesa: as circunstâncias facilitaram-na. A
luxúria
dos indivíduos, soltos sem família, no meio da indiada nua, vinha servir a poderosas razões do Estado no sentido de rápido povoamento
mestiço
da nova terra. E o certo é que sobre a mulher
gentia
fundou-se e desenvolveu-se através dos séculos XVI e XVII o grosso da sociedade colonial, em um largo e profundo mestiçamento, que a interferência dos padres da
Companhia de Jesus
salvou de resolver-se todo em
libertinagem
para em grande parte regularizar-se em casamento cristão".
[
161
]
Capa da
partitura
da
ópera
O Guarani
, de
Carlos Gomes
, baseada no
romance homônimo
de
José de Alencar
, um clássico da mitificação romântica do índio como o
bom selvagem
Hodiernamente, milhões de brasileiros descendem, em diferentes graus, dos povos indígenas. Em uma pesquisa realizada em 2008, o IBGE perguntou a origem familiar de brasileiros de diferentes regiões e 21,4% dos entrevistados declararam descender de índios.
[
162
]
De fato, tradições familiares recordando de "avós índias laçadas no mato", cobiçadas pela sua beleza e mesmo sua bravura, mas "amansadas" o suficiente para se tornarem esposas cristãs, são recorrentes pelo Brasil afora.
[
163
]
[
164
]
[
165
]
[
166
]
Complementando a descrição de Freyre, Elaine Rocha, da
Universidade de Adis Abeba
, diz que o índio, antes visto como um indolente inútil para o trabalho, um bêbado contumaz ou um rebelde perigoso, adquiriu prestígio quando foi mitificado pelos românticos do
século XIX
, e sua incorporação à sociedade branca em certos aspectos foi mais fácil do que a do negro, muito mais desprezado pela cultura dominante, e cuja dignificação só está se processando recentemente, mesmo que este também tenha deixado vastíssima descendência miscigenada, tanto com brancos como com índios.
[
164
]
Prossegue a pesquisadora:
"O relacionamento entre índios e brancos durante a conquista da terra (foi reconstruído pelos românticos) de maneira que ficasse bem clara a superioridade moral e material do europeu, devidamente reconhecida pelos indígenas, que almejam, sobretudo, servir ao branco por quem se apaixonam e por quem são capazes de sacrificar a vida.... Dessa maneira, a nobreza do protagonista indígena só se mantém na medida em que se reconhece o mérito civilizador de seu senhor. Assim também, no mito da avó que foi pega a laço, a avó, no caso é a corajosa indígena que, a princípio, resiste ao agressor, mas, ao final, se rende à sua superioridade. Numa única lenda, as famílias logram explicar a tonalidade da pele mais escura, exaltar a honra da avó, que só se rendeu aos encantos do homem branco depois de 'laçada', e da indígena fiel que permanece casada e dá ao senhor uma família 'genuinamente' brasileira".
[
164
]
Pesquisas científicas confirmam aquelas tradições familiares, mostrando que milhões de brasileiros carregam em seu
DNA
o material genético de povos indígenas. A população brasileira é bastante heterogênea, portanto o grau de ancestralidade indígena varia de pessoa para pessoa e também geograficamente. De maneira geral, as pesquisas mostram que os brasileiros apresentam alto grau de ancestralidade europeia do lado paterno, enquanto as ancestralidades ameríndias e africanas predominam do lado materno. Isso reflete a característica da colonização portuguesa, na qual a maioria dos colonizadores eram homens, gerando o padrão sexual de miscigenação entre homem europeu e mulher indígena ou africana. O Brasil contrasta com outros países da
América Latina
onde a presença negra é inexistente ou residual.
[
167
]
Em uma dessas pesquisas, 33% dos brasileiros brancos, da classe média, descendem de uma ancestral indígena pela linhagem materna. Nenhum deles descende de índios pela linhagem paterna. Isso confirma que o homem indígena deixou poucos descendentes no Brasil, enquanto a mulher indígena foi importante na formação da população brasileira:
[
168
]
Outra pesquisa informou que os brasileiros, brancos, pardos ou negros, apresentam um grau uniforme de ancestralidade indígena, normalmente abaixo dos 20%. Existe, contudo, discrepância regional. Enquanto que na amostra de
Manaus
, capital no
Amazonas
, 37,8% da ancestralidade da população é indígena, em
Santa Catarina
é de apenas 8,9%.
[
169
]
Situação recente
[
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|
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]
Ver artigo principal:
Genocídio dos povos indígenas no Brasil
Manifestantes em conflito com a polícia em Brasília sobre área considerada indígena mas reivindicada por uma construtora, 2011
Índios
guarani
de uma aldeia urbana de Porto Alegre, marginalizados, vivendo de alguma ajuda oficial e da venda de artesanato nas ruas
O convívio dos povos indígenas com o restante da sociedade brasileira tem sido problemático desde o Descobrimento, mesmo com seus lados positivos, e não parece que as tensões vão se resolver tão cedo. Para uns o caminho inevitável é a progressiva assimilação à sociedade ocidental, para outros, o isolamento se revela a única maneira de preservar a identidade cultural das tribos, que se dissolve ou perde grande parte de suas características singulares invariavelmente em todos os casos de contato próximo e continuado com a civilização. Entre os extremos, explodem continuamente novos conflitos e disputas que causam mortes e outros tipos de violência, chegando as denúncias a fóruns internacionais como a
ONU
, a
OEA
e a
OIT
, sem que até agora houvesse solução satisfatória.
[
170
]
[
171
]
[
155
]
[
139
]
A consequência prática deste processo dialético dramático tem sido a expulsão de muitos povos de suas terras, transformando, como disse Melissa Curi, professora da
Universidade de Brasília
e funcionária da
Funai
, "sociedades autônomas em minorias dependentes";
[
170
]
a desvirtuação de formas válidas e em muitos aspectos mais saudáveis de ver o mundo e de relacionar-se com a Natureza;
[
98
]
a perda de inúmeros saberes e artes tradicionais; a destruição gratuita de inúmeras vidas por doenças,
preconceitos
, pobreza, alcoolismo, prostituição e violência, entre tantos outros males que surgem do contato com os civilizados.
[
170
]
[
171
]
[
172
]
Considerando que de fato a sua população atual é drasticamente menor do que a que vivia em 1500, junto com as amplas evidências de descaso e maus tratos contínuos que são domínio público, muitos especialistas e observadores nacionais e internacionais denunciam a situação histórica dos índios no Brasil como um
genocídio
sistemático, que ainda hoje continua a apagar muitas vidas.
[
139
]
[
155
]
[
160
]
[
173
]
[
174
]
Entre 2003 e 2011 mais de 500 índios foram assassinados, em conflitos geralmente ligados à posse de terras. Em 2012 o índice de violência contra índios cresceu 237% em relação a 2011.
[
175
]
[
176
]
Em 2013 as lideranças indígenas entregaram uma carta à presidente
Dilma Rousseff
exigindo medidas urgentes para evitar "a extinção programada" de suas etnias que acusam o governo de orquestrar.
[
177
]
Segundo o
Conselho Indigenista Missionário
, em 2018 a violência contra os índios continuava crescendo, com 110 assassinatos, além de 847 casos de omissão e morosidade na regularização de terras; 20 casos de conflito relativo a direitos territoriais; 96 casos de invasões de terra, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio, e 59 casos de roubo de madeira e minérios, caça e pesca ilegais, contaminação do solo e da água por agrotóxicos, e incêndios, dentre outras ações criminosas. Os casos de suicídio de indígenas chegaram a 128.
[
178
]
Segundo muitos observadores, o
governo Bolsonaro
tem promovido o maior ataque à dignidade, à cultura e aos direitos indígenas das últimas décadas,
[
179
]
[
180
]
[
181
]
e o presidente tem dado repetidas declarações públicas onde expressa visões depreciativas e preconceituosas sobre os indígenas.
[
182
]
Para Fiona Watson, diretora de pesquisas da organização
Survival International
, "continuamos recebendo dezenas de relatórios de todo o Brasil sobre o que parece ser uma guerra aberta contra as comunidades indígenas". Sydney Possuelo, ex-diretor da Funai e defensor dos direitos indígenas, disse que "a situação dos povos indígenas do Brasil nunca foi boa. Mas, durante 42 anos de trabalho na Amazônia, este é o momento mais perigoso que já vi".
[
183
]
A posse de
suas terras
é a maior reivindicação dos índios brasileiros na atualidade.
[
160
]
A terra é a raiz de valores fundamentais para suas culturas. Mas cerca de 90% de todos os processos demarcatórios estão sendo contestados na Justiça, as deliberações costumam se arrastar por décadas e mesmo terras já demarcadas frequentemente são invadidas ou espoliadas com o beneplácito do governo e da sociedade.
[
184
]
[
185
]
Muitos já vivem em cidades, seja forçados à migração pela expulsão das suas terras, seja pelas difíceis condições de subsistência que encontram em reservas pequenas e exaustas, seja procurando as cidades espontaneamente, em busca de maior conforto, reconhecimento, tratamento de saúde, educação ou por outros motivos, mas via de regra vão iludidos e o que encontram lá são condições talvez ainda mais árduas, vivendo em sua maioria em
favelas
e tentado com muita dificuldade preservar suas tradições, quando não acabam, por força de um contexto desfavorável, as abandonando. Se tornam mais visíveis, e isso tem ajudado na sensibilização geral da população, mas ao mesmo tempo permanecem entre os grupos urbanos mais desamparados, tão à margem da sociedade quanto outras minorias "problemáticas".
[
172
]
[
186
]
[
187
]
[
188
]
[
189
]
Por outro lado sua conscientização política cresce a cada dia, suas demandas agregam apoios diversos, e muitos povos nativos já se encontram mobilizados e unidos através de várias associações, entre as quais se destaca a
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
, que os representa em nível nacional. Mesmo com os significativos avanços recentes, o caminho que os leva até uma verdadeira equiparação social apenas começou a ser aberto, e muito ainda resta por fazer.
[
190
]
[
191
]
Como sintetizou o antropólogo Rinaldo Arruda, da
Universidade de São Paulo
,
Índios
baré
em suas terras, a Comunidade Nova Esperança, 2005
"Na postura ideológica predominante, os índios não fazem parte de nosso futuro, já que são considerados uma excrescência arcaica, ainda que teimosa, de uma
pré-brasilidade
. Uma brasilidade, aliás, que não os reconhece, formada a partir de sua negação.... Do prisma das sociedades indígenas, as contradições, ambiguidades e tensões decorrentes das relações de dependência e subordinação com a sociedade envolvente permanecem atuantes, assim como ainda prevalecem.... os interesses anti-índígenas, exigindo um permanente esforço de resistência, de luta política e de reelaboração de suas formas de reprodução sociocultural.... De um lado, o conhecimento dos processo naturais e as práticas de manejo adaptadas às florestas tropicais desenvolvidas por estes povos, por meio da observação e experimentação, cujos resultados acumularam-se em milênios de ocupação da região, têm grande interesse para a ciência e para a sociedade. Por outro, o estilo de vida cooperativo, baseado no desenvolvimento de mecanismos políticos e psicológicos de estabilidade social, colocam questões fundamentais para a humanidade. Mas a questão crucial, que a atualidade nos coloca de forma cada vez mais incisiva, é se haverá a oportunidade e a possibilidade de a humanidade aventurar-se em culturas singulares no interior do sistema mundial, inventando ao mesmo tempo outros contratos de
cidadania
".
[
191
]
Legislação e política
[
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|
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]
Ver artigos principais:
Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas
,
Estatuto do Índio
, e
Fundação Nacional do Índio
Ver também:
Lista de povos indígenas do Brasil
Desde os primeiros tempos da colonização o índio recebeu proteção legal. Em 1549, na instalação do Governo-geral em Salvador, apareceu a primeira regulamentação sobre os índios na forma de um Regimento que garantia proteção aos aliados da Coroa e dava aos
jesuítas
voz ativa nos assuntos relacionados aos índios.
[
149
]
Em 1680 um Alvará Régio instituiu o indigenato, o reconhecimento do direito congênito e primário dos povos nativos ao seu território tradicional.
[
192
]
Depois destas leis, muitas outras apareceram para dar salvaguardas aos povos indígenas, mas invariavelmente com poucos efeitos práticos.
[
139
]
[
193
]
Efígie indígena na cédula de
5 Cruzeiros
, conhecida como "cédula do índio", emitida pela
Casa da Moeda do Brasil
em 1961 no
Governo Tancredo Neves
.
[
194
]
Para tentar resolver alguns desafios mais urgentes, o governo criou em 1910 o
Serviço de Proteção ao Índio
(SPI). O Serviço garantiu a posse de algumas terras tradicionais aos seus ocupantes e as protegeu contra invasões, e reconheceu a importância de suas culturas originais e suas instituições, mas em tudo sua atuação foi tímida. Depois de o Serviço se desestruturar completamente entre grande controvérsia pública, foi substituído pela
Fundação Nacional do Índio
(Funai) em 1967. A Funai também não encontrou condições fáceis de trabalho, erguendo-se sobre os escombros do SPI, administrando um contexto de perene carestia de recursos humanos e financeiros, enfrentando prolongadas e desgastantes batalhas jurídicas em múltiplas frentes, e tendo em tempos recentes seus poderes reduzidos, também sob vasta controvérsia. Além disso, toda a política oficial na época continuava a se voltar ao objetivo de assimilar os povos à cultura brasileira, negando-lhes o direito à
autodeterminação
previsto na
Declaração Universal dos Direitos Humanos
de 1948, embora essa linha de pensamento já não fosse um consenso. Mas ainda foi a base do
Estatuto do Índio
, lei que entrou em vigor em 1973, mesmo que ela tenha trazido muitos avanços para a questão indígena.
[
136
]
[
139
]
[
195
]
[
196
]
Indígenas na Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a
Constituição do Brasil
de 1988.
Indígenas durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal sobre a demarcação da
Terra Indígena Raposa Serra do Sol
, em Roraima, 2008
Muito em virtude da mobilização dos próprios índios, especialmente através da União das Nações Indígenas (UNI),
[
197
]
uma nova visão foi inaugurada com a
Constituição de 1988
, que declarou "todos são iguais perante a Lei, sem distinções de qualquer natureza" e admitiu o
multiculturalismo
, reconhecendo vários direitos indígenas importantes, incluindo o direito à posse da terra habitada tradicionalmente e à preservação intacta de suas culturas no ambiente natural necessário para isso. Ocorre que o
Estatuto
e a
Constituição
entraram em conflito em aspectos doutrinais e se tornaram imediatamente polêmicos, e a regulamentação das normas secundárias nunca progrediu como deveria. Além disso, o regime de
tutela
, à qual os índios estão formalmente sujeitos pelo Estado, como definido no
Estatuto
está em conflito com aquele expresso no
Código Civil
, há disputa sobre o que quer dizer "terras tradicionais", sobre o significado de
etnia
, e a controvérsia permanece acesa em torno de vários outros conceitos fundamentais. Tudo isso lança os índios num contexto jurídico incerto e incoerente muito desfavorável aos seus interesses.
[
139
]
[
198
]
[
171
]
[
199
]
[
200
]
Também se complica a aplicação de penalidades por crimes cometidos por índios.
[
201
]
Diversos outros dispositivos legais em anos recentes contemplaram interesses indígenas em áreas como saúde, meio ambiente, educação, patrimônio arqueológico e imaterial, assistência social, apoio à produção e regularização fundiária.
[
202
]
Apesar dos diversos decretos, o índio brasileiro tem que se integrar na
cultura brasileira
para requerer
emancipação
.
[
203
]
Instâncias internacionais como as
Nações Unidas
, a
Organização Internacional do Trabalho
e a
Unesco
também têm se empenhado na elaboração de convenções e programas de proteção e fomento às culturas indígenas de todo o mundo, com destaque para dois marcos internacionais de grande importância: a
Declaração das Nações Unidas sobre Direitos dos Povos Indígenas
, de 2007, e sobretudo a
Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre os Povos Indígenas e Tribais
, de 1989, criada por consequência da outra, o único instrumento internacional referente aos índios com força de lei, do qual o Brasil é signatário.
[
139
]
[
204
]
[
205
]
[
206
]
[
207
]
Mesmo com tantas garantias, o Congresso Nacional e as cortes de justiça do Brasil se tornaram arenas de conflitos legais intermináveis, e sob pressão de
lobby
econômico e político inúmeros projetos de lei apresentados nos últimos anos vêm tentando sabotar ou reverter as conquistas já realizadas, colocando mais combustível numa polêmica antiga que continua degenerando para a violência armada.
[
184
]
[
208
]
[
209
]
Articulação interna
[
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]
Ver artigo principal:
Movimento indígena no Brasil
Acampamento Terra Livre de 2019
Cacique
Raoni
, da etnia
caiapó
, uma das figuras mais respeitadas do movimento indígena na atualidade
As associações e organizações indígenas surgiram no Brasil nos anos 1970-80, a partir de um rápido processo de conscientização política entre as tribos ocorrido com importante apoio da Igreja Católica.
[
210
]
Marçal de Souza
,
Ailton Krenak
,
Marcos Terena
e
Raoni
, entre outras lideranças, começavam a se tornar notórias até internacionalmente, e surgiam organismos como o Warã Instituto Indígena Brasileiro e o Grumin — Rede de Comunicação Indígena.
[
211
]
[
212
]
[
213
]
[
214
]
O debate para a
Constituição de 1988
deu outro impulso à articulação, formando-se a UNI, a cuja influência se devem muitos dos avanços expressos na nova lei, estimulando também a criação de novas organizações. Nesta época o
Ministério Público
passou a dar grande atenção aos índios, favorecido pelo novo contexto jurídico e por reformas administrativas.
[
197
]
Mas somente em 2005 é que foi conseguida uma integração poderosa e permanente em nível nacional, materializada na
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
(APIB), fruto do consenso obtido entre as lideranças reunidas no
Acampamento Terra Livre
, montado anualmente na
Esplanada dos Ministérios
, em
Brasília
, exatamente para ganhar visibilidade e sensibilizar o poder público sobre as necessidades urgentes das tribos.
[
190
]
[
211
]
Em 2006, pesadamente pressionado, o governo criou a Comissão Nacional de Política Indigenista, subordinada à Funai, com o objetivo expresso de "auxiliar na articulação intersetorial do governo e proporcionar uma maior participação e controle social indígena sobre as ações governamentais".
[
190
]
Os índios brasileiros tentam fortalecer sua integração interna e o diálogo com o restante da sociedade através de muitas outras iniciativas, independentes ou em parceria com entidades e o governo, como os
Jogos dos Povos Indígenas
, encontros culturais e as assembleias estaduais, e mantêm websites para a divulgação de sua cultura e dos desafios que enfrentam.
[
215
]
[
216
]
[
217
]
Igrejas, acadêmicos, ONGs e vários outros segmentos sociais nas décadas recentes têm dedicado atenção aos índios brasileiros, e lhes têm dado significativa ajuda em muitas de suas reivindicações.
[
197
]
Demografia
[
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|
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]
Ver artigo principal:
Lista de unidades federativas do Brasil por população indígena
Proporção da população indígena
por estados brasileiros, de acordo com o IBGE
 
 > 3%
 
 2% – 3%
 
 1% – 2%
 
 0,5% – 1%
 
 < 0,5%
De acordo com o Censo de 2022, o Brasil tem 1,7 milhão de pessoas que se identificam como indígenas, espalhadas em cerca de 86% dos municípios do Brasil, concentrados em sua maioria na região Norte. Esse grupo corresponde a 0,83% da população brasileira e 63% dele reside fora de territórios indígenas. A localidade que abriga a maior população indígena do país é a
Terra Indígena Yanomami
, com 27.152 indivíduos, sendo seguida pela Terra Indígena Raposa Serra do Sol, com 26.176 indivíduos.
[
218
]
[
219
]
Segundo um estudo coordenado pelo geneticista Sérgio Danilo Pena e publicado na revista Ciência Hoje em abril de 2000, 3 em cada 5 brasileiros naquele período carregavam em cada célula do corpo uma herança genética que provém dos índios ou dos africanos e se preservou por meio das mães ao longo das gerações.
[
220
]
No entanto, essa população miscigenada com ascendência distante não é considerada indígena, e os índios autênticos declinaram incessantemente desde o início da colonização.
[
155
]
O primeiro
inventário
sobe eles só foi feito em 1884, pelo viajante alemão
Karl von den Steinen
, que registrou a presença de quatro grupos ou nações indígenas de acordo com as suas
línguas
:
tupi
,
macro-jê
,
caribe
e
aruaque
.
[
50
]
Estimativas recentes da população indígena na época do Descobrimento apontam que existiam no território brasileiro mais de mil povos, com um total de aproximadamente 5 milhões de pessoas, talvez mais, mas nos anos 60 sobreviviam somente cerca de 120 mil indivíduos,
[
155
]
e os números continuaram a cair até os anos 80, chegando-se a pensar que sua extinção completa era inevitável. Porém, com programas de auxílio do governo, depois disso a tendência passou a ser de crescimento populacional.
[
44
]
[
221
]
Mapa da distribuição de indígenas por
municípios brasileiros
, de acordo com o
Censo 2022
.
 
 > 80%
 
 50% - 79%
 
 25% - 49%
 
 10% - 24%
 
 1% - 9%
 
 < 1%
Em 2006 eram 215 os povos indígenas, com uma população de aproximadamente 345 mil índios, segundo dados da Funai.
[
222
]
Mas no Censo de 2010 817.963 pessoas se autodeclararam índias,
[
44
]
[
221
]
[
223
]
um aumento súbito que se explica pela mudança nos critérios de identificação dos índios, e não por fatores demográficos.
[
224
]
Araújo
et alii
, em publicação do MEC/Unesco, reconhecem que os dados são incertos: "O Brasil não tem ainda uma estimativa precisa sobre a população indígena em seu território. Como até hoje nunca se fez um censo indígena, as contagens variam e oscilam na medida em que se baseiam em informações de diferentes e heterogêneas fontes".
[
222
]
Hoje sete povos têm menos de 40 integrantes e alguns têm menos de 10.
[
44
]
Entre os estados com maior população indígena estãoː
Amazonas
(29,98%),
Bahia
(13,53%),
Mato Grosso do Sul
(6,87%),
Pernambuco
(6,3%) e
Roraima
(5,75%).
[
218
]
Abaixo, dados dos
recenseamentos
do
IBGE
de 2000, 2010 e 2022, demonstrando em percentual os dez municípios brasileiros com maior população autodeclarada indígena:
Dados de 2000
[
225
]
São Gabriel da Cachoeira
(AM) – 76,31%
Uiramutã
(RR) – 74,41%
Normandia
(RR) – 57,21%
Santa Rosa do Purus
(AC) – 48,29%
Ipuaçu
(SC) – 47,87%
Baía da Traição
(PB) – 47,70%
Pacaraima
(RR) – 47,36%
Benjamin Constant do Sul
(RS) – 40,73%
São João das Missões
(MG) – 40,21%
Japorã
(MS) – 39,24%
Dados de 2010
[
226
]
Uiramutã
(
RR
) – 88,1%
Marcação
(
PB
) – 77,5%
São Gabriel da Cachoeira
(
AM
) – 76,6%
Baía da Traição
(PB) – 71,0%
São João das Missões
(
MG
) – 67,7%
Santa Isabel do Rio Negro
(AM) – 59,2%
Normandia
(RR) – 56,9%
Pacaraima
(RR) – 55,4%
Santa Rosa do Purus
(
AC
) – 53,8%
Amajari
(RR) – 53,8%
Dados de 2022
[
227
]
Uiramutã
(RR)ː 94,5%
São Gabriel da Cachoeira
(AM)ː 88,7%
Santa Isabel do Rio Negro
(AM)ː 84,8%
Marcação
(PB)ː 81,4%
Carnaubeira da Penha
(PE)ː 77,1%
Baía da Traição
(PB)ː 76,6%
Normandia
(RR)ː 76,1%
São João das Missões
(MG)ː 71,9%
Amajari
(RR)ː 65,5%
Santa Rosa do Purus
(AC)ː 63,3%
Povos isolados
[
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]
Ver artigo principal:
Povos isolados
Aldeia de índios isolados, no Acre
Há vários registros de avistamento de povos indígenas sem contato com a civilização. A Funai criou em 1987 um departamento especial para tratar deles,
[
228
]
e segundo seus dados de 2013 são 32 os povos isolados no Brasil, com um total de cerca de dez mil pessoas.
[
229
]
Mas os dados são controversos. Em outro documento ela acusou a existência de 69 povos,
[
230
]
e o CIMI, por sua vez, apontou em 2012 para 98.
[
231
]
Como se pode imaginar, sabe-se muito pouco sobre eles, e a partir de más experiências anteriores, para preservar a integridade de suas culturas agora é política da Funai só se aproximar de isolados em caso de ameaça à sua sobrevivência. Foi o que aconteceu com uma tribo dos cauaívas que vive em uma área do município de
Colniza
, Mato Grosso, cuja existência se desconhecia até seu território ser invadido por fazendeiros em 2005, colocando-os em risco iminente de agressão ou contágio.
[
229
]
[
232
]
Vários desses avistamentos ocorreram dentro de reservas já demarcadas, o que favorece sua proteção, mas outros estão expostos em regiões que sofrem grande pressão ambiental, e seu destino é muito incerto. Alguns grupos, como os hi-merimã, os
apiacás
do matrinxãs e os catavixis, fizeram contato em tempos anteriores mas decidiram voltar ao isolamento, e outros fazem contato com outros índios mas não com civilizados.
[
233
]
Povos emergentes
[
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|
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]
Ver artigo principal:
Povos indígenas emergentes
Família de cariris
Ao longo do
século XX
apareceram grupos miscigenados reivindicando a condição de "povo indígena". Este processo, chamado
etnogênese
, tem ocorrência em todo o mundo. No Brasil ocorre principalmente na
região Nordeste
. São dezenas de grupos requerendo reconhecimento, sendo exemplos os
náuas
,
matipus
,
caxixós
, apiuns,
cariris
,
calabaças
, os
tabajara sda Paraíba
, os
tapebas
,
pitaguaris
,
tremembés
,
canindés
, os
tupinambás de Olivença
e os
kalankó
.
[
234
]
Para a
antropologia
,
etnia
, além de envolver elementos
culturais
e
genéticos
, é um
grupo social
. A etnogênese se justifica, portanto, como um processo de fundo social e político baseado em uma autoidentificação. Porém, a transformação qualitativa gerada pelo reconhecimento formal como índios é ambígua e controversa. Por um lado, passam muitas vezes a ser vistos como "menos índios" que os outros índios, não merecendo o mesmo tratamento, enquanto ao mesmo tempo já não são "civilizados", perdendo direitos correspondentes, podendo fazê-los cair em uma espécie de
limbo
jurídico e social.
[
234
]
[
160
]
[
235
]
[
236
]
Na análise de José Maurício Arruti, antropólogo do
Museu Nacional
,
"Importa compreender as razões, os meios e os processos que permitem um determinado agregado qualquer se instituir como grupo, ao reivindicar para si o reconhecimento de uma diferença em meio à indiferença, ao instituir uma fronteira onde antes só se postulava contiguidade e homogeneidade. Se o
etnocídio
é o extermínio sistemático de um estilo de vida, a etnogênese, em oposição a ele, é a construção de uma autoconsciência e de uma identidade coletiva contra uma ação de desrespeito (em geral produzida pelo Estado nacional), com vistas ao reconhecimento e à conquista de objetivos coletivos".
[
234
]
Mas às vezes essas reivindicações são criticadas como fraudulentas, objetivando apenas a obtenção de terras e benefícios oficiais e o atingimento de resultados políticos, e os conflitos são frequentes.
[
237
]
[
238
]
Como exemplo, um colunista da revista
Veja
afirmou em 2013 que de 15 reservas propostas para demarcação no Paraná, em 5 os índios só "apareceram" ali em 2007, e nas outras, em 2012, e "o único 'povo tradicional' nas áreas reivindicadas pela Funai são os
produtores rurais
".
[
238
]
Terras indígenas
[
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|
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]
Ver artigo principal:
Terras indígenas
Mapa de
reservas indígenas
brasileiras em 2008
Em 1961 foi criado o
Parque Indígena do Xingu
, a primeira reserva indígena brasileira a ser criada numa perspectiva multicultural, após forte atuação dos
irmãos Villas-Bôas
, do
Marechal Rondon
e de
Darcy Ribeiro
, entre outros indigenistas, para que a natureza, os povos nativos da região, suas culturas e costumes fossem preservados em sua inteireza e diversidade.
[
239
]
[
240
]
O governo estabeleceu recentemente uma política territorial específica para os índios, consagrada na
Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial de Terras Indígenas
, que procura criar "estratégias integradas e participativas com vistas ao desenvolvimento sustentável e à autonomia dos povos indígenas".
[
241
]
[
242
]
Outras organizações, incluindo estrangeiras, auxiliam o governo nessa difícil tarefa, mas algumas repetidamente são acusadas de servirem a interesses não revelados. Nesse sentido, controles mais rígidos sobre a atuação dessas organizações junto às comunidades indígenas estão sendo estudados.
[
197
]
[
243
]
O modelo das reservas indígenas demarcadas pela Funai difere no modelo norte-americano, no qual a propriedade das terras passa a pertencer aos povos indígenas. No Brasil, as reservas indígenas demarcadas pela Fundação Nacional do Índio são patrimônio inalienável da União, cedidas para posse e
usufruto
vitalício dos índios, não havendo, portanto, como associá-las a uma perda de
soberania
ou ameaças à
segurança nacional
, como tem sido alegado por muitos militares de alta patente.
[
147
]
[
187
]
[
244
]
Em 2006 eram 582 terras indígenas, com uma extensão total de 108 429 222 hectares, equivalendo a 12,54% de todo o território nacional. A maior parte está localizada na Amazônia, com 405 terras distribuídas em 103 483 167 hectares, que correspondem por cerca de 99% da área total de terras indígenas brasileiras. Dois terços da população indígena vivem nessas reservas amazônicas, e o restante se comprime no 1% de território que lhe coube nas outras regiões todas somadas.
[
222
]
Segundo a Funai, em 2012 havia 683 terras cadastradas no seu Sistema de Terras Indígenas, estando elas em diferentes graus de regularização. 406 estavam plenamente regularizadas, mas 20% das reservas estavam invadidas. Todos os estados brasileiros, incluindo o
Distrito Federal
, possuem comunidades indígenas.
[
230
]
O problema da demarcação de reservas desde os tempos coloniais tem sido acompanhado de grande controvérsia, violência e denúncias repetidas de corrupção oficial e violações de
direitos humanos
.
[
245
]
[
246
]
[
247
]
As reservas não amazônicas são os principais palcos de conflito, sendo todas áreas pequenas, densamente povoadas e pesadamente pressionadas pelo entorno civilizado.
[
222
]
Em 2012 o índice de violência contra índios cresceu 237% em relação ao ano anterior, em crimes geralmente associados à questão das terras. Segundo o
Conselho Indigenista Missionário
(CIMI), 563 índios foram assassinados nos últimos dez anos no país.
[
176
]
Lideranças da
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
são recebidas pelo Ministro da Justiça,
José Eduardo Cardozo
, e outros oficiais do governo em 2012. Os índios protestam contra a
Portaria 303
, considerada uma ameaça à integridade das terras indígenas
Indígenas guarani-caiouás em acampamentos improvisados à beira da rodovia que liga as cidades de
Amambaí
e
Ponta Porã
, 2011
A oposição aos interesses dos índios é grande, especialmente nos setores ligados ao
agronegócio
, empreiteiras e indústrias, que usam de seu enorme poder de influência política e econômica para sustentar argumentos invalidados pela Lei, pela
ética
elementar ou pela melhor ciência.
[
248
]
[
249
]
[
250
]
[
209
]
Por exemplo, é frequente a alegação de que se os índios continuarem a receber terras como vinham recebendo na última década, em breve esgotariam os estoques disponíveis, impedindo o crescimento da
produção primária
e criando sério risco para a
segurança alimentar
nacional. Mas os estudos em que baseia esta tese foram criticados como falhos mesmo por funcionários do governo, e de acordo com a
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
e outras instituições de alto gabarito, a alegação positivamente não tem fundamento na realidade.
[
251
]
[
252
]
[
253
]
Outros atos governamentais considerados ameaças à sua sobrevivência, à sua integridade cultural e aos seus direitos constitucionais à terra, aparecem na forma de leis promulgadas recentemente ou em tramitação. O CIMI afirmou em 2013 que "há mais de uma centena de proposições legislativas contrárias aos direitos dos povos em tramitação nas duas casas do Congresso".
[
250
]
Projetos do governo ou de privados em terras tradicionais, não autorizados pelos índios como manda a
Constituição
, entre eles represas, minerações e estradas, são as maiores fontes de conflito.
[
245
]
[
254
]
[
255
]
Tais medidas são justificadas em geral em nome do "relevante interesse da União", uma possibilidade prevista constitucionalmente, mas que tem sido interpretada com cada vez maior largueza, gerando múltiplos protestos na sociedade e até em setores do próprio governo.
[
254
]
[
256
]
[
257
]
A própria Funai teve seus poderes diminuídos recentemente, passando a compartilhar a atribuição de demarcar terras, antes exclusividade sua, com vários outros órgãos do governo ligados ao desenvolvimento econômico e social,
[
258
]
[
259
]
e para muitos índios ela está sucateada, corrompeu-se e perdeu a credibilidade.
[
260
]
[
261
]
Os casos de abuso contra os direitos constitucionais dos indígenas às suas terras se repetem, e o impacto pode ser ilustrado pela situação dos
guarani-caiouás
, uma das etnias mais fortemente pressionadas pela perda e invasão de suas terras, na descrição do
Ministério das Relações Exteriores
:
"Nos últimos anos, a Funai tem investido muito para recuperar os territórios tradicionalmente ocupados pelos guarani-caiouás e dominados irregularmente por produtores de soja e agropecuaristas, a fim de garantir a sobrevivência física e cultural deste grupo que, no passado, se espalhava da região Centro-Oeste até o Sul do País. A perda gradual do espaço geográfico da aldeia (
tekoha
) comprometeu a organização social dos guarani-caiouás, fortemente ligada aos seus conceitos míticos. O espaço da aldeia tem uma relação com o sagrado e a sua perda implica uma falta de referencial para as demais atividades do grupo. Não só a perda do
tekoha
alterou os aspectos culturais desses índios. O processo de anulação dos valores culturais dos guarani-caiouás se deveu, em grande parte, à presença de várias seitas
protestantes
, que penetram no grupo com o objetivo de dar-lhes assistência. Esta influência das missões religiosas, impondo conceitos estranhos a eles, como o do
pecado
, gerou conflitos. Sem o referencial místico, intrínseco à terra que deveriam ocupar, e contaminados por outros entendimentos de religiosidade, muitos índios viram e ainda veem no
suicídio
uma alternativa para acabar com o próprio conflito interno. Quando não tomam esta atitude extrema, entregam-se ao consumo de bebidas alcoólicas, que, igualmente, leva à sua degradação. Alguns, entretanto, buscam a alternativa de se empregarem nas fazendas instaladas em suas terras tradicionais. Esta decisão, por si só, já representa um total distanciamento do padrão cultural de um guarani-caiouá".
[
42
]
Segundo Roberto Liebgott e Iara Bonin, coordenadores do CIMI, refletindo um consenso entre os especialistas,
Revoltados com a
Proposta de Emenda à Constituição 215
, que dá ao Congresso Nacional poderes para demarcar as terras indígenas, centenas de índios invadiram o plenário da Câmara dos Deputados em 16 de abril de 2013
"A condição primordial para qualquer relação respeitosa que se pretenda com os povos indígenas é a demarcação e garantia de suas terras. Não há como assegurar a vida, a cultura, a existência digna desses povos fora de seus territórios. Mas, evidentemente, esta garantia não é suficiente.... Infelizmente, todas as referências culturais e as formas de representação que produzimos sobre os povos indígenas nos levam a pensar que eles são frágeis, menos desenvolvidos, menos cultos, menos civilizados, menos dispostos ao trabalho, e que suas culturas são primitivas, menos complexas, menos valiosas. Tudo isso precisa ser problematizado. A grande questão é que somos impelidos a pensar a existência indígena em função de nossa própria existência. Neste caso, afirmamos a tolerância para com eles, mas nunca nos perguntamos quem somos nós para tolerar, aceitar ou permitir que eles vivam do modo que desejarem. Um bom começo para repensarmos as bases dessa relação seria reconhecermos que os povos indígenas possuem suas formas próprias de viver, e isso independe de nossa aprovação, aceitação ou tolerância".
[
210
]
A falta de demarcação gera outros efeitos negativos além dos descritos, pois somente comunidades residentes em áreas regularizadas podem receber oficialmente uma série de serviços de educação, fomento agrícola e social.
[
160
]
A solução do problema das terras indígenas terá importantes repercussões tanto para a sobrevivência daqueles povos quanto para a conservação das florestas. O Brasil é o campeão mundial em
desmatamento
, e sofre com inúmeras outras ameaças que põem em risco a
biodiversidade
e os
ecossistemas
, como a
poluição
e o
aquecimento global
.
[
262
]
[
98
]
Neste sentido, o papel dos índios instalados em suas terras de direito e mantendo seus hábitos tradicionais é importante na medida em que essas comunidades são consideradas exemplos em
manejo sustentável
das florestas. O
Millennium Ecosystem Assessment
, uma das maiores sínteses científicas das últimas décadas sobre o meio ambiente, declarou que, embora ainda sejam necessários estudos científicos mais profundos, os povos indígenas podem ser tão efetivos para a preservação das florestas quanto sua transformação em santuários ecológicos convencionais.
[
98
]
Economia e desenvolvimento
[
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|
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]
Ver artigo principal:
Economia indígena
Índios
guarani
semi-aculturados
vivem em situação de pobreza na
região das Missões
, onde as reservas são pequenas e disputadas
Índios
mundurucus
chegam em Brasília para pedir a suspensão de empreendimentos energéticos na Amazônia e discutir outras reivindicações indígenas, 2013
Já são raras as tribos que podem viver de acordo com suas antigas práticas, até mesmo os povos isolados estão sob crescente pressão.
[
231
]
Este problema está diretamente ligado à conflituosa questão de suas terras. Em 2003, mais de 90% das tribos enfocadas em um estudo de Peter Schröder dependiam principalmente da agricultura. A caça e a pesca, antes muito importantes, ainda são praticadas por quase todas as tribos, mas na maioria das vezes em escala limitada.
[
263
]
Piora o problema o fato de que muitas reservas são pequenas, seus
recursos naturais
estão se exaurindo e já não têm condições de sustentar comunidades em crescimento.
[
186
]
Cerca de um terço das reservas enfrenta dificuldades no abastecimento de alimentos e nas infraestruturas, tornando a desnutrição e a pobreza problemas recorrentes,
[
264
]
e forçando muitos à migração para fazendas da região ou para as cidades, em busca de melhores condições.
[
188
]
[
265
]
Alguns, porém, migram em busca de educação, de reconhecimento, de atendimento médico e outros motivos. Já são muitos os índios que cursam universidades, exercem profissões liberais e técnicas e mesmo ingressam na política partidária — como foi o caso do notório
Juruna
—, influenciando a realidade nacional em múltiplos níveis.
[
188
]
[
266
]
[
267
]
[
268
]
Constitucionalmente os índios têm direito à participação nos lucros derivados de investimentos e obras em suas terras, mas como a Lei nem sempre é cumprida, em grande número de casos os povos acabam explorados sem compensações adequadas, sofrendo sérios impactos sociais negativos e vendo o ambiente de que precisam para viver ser destruído e poluído. Projetos de mineração, usinas hidrelétricas, exploração madeireira, agropecuária,
grilagem
de terras e obras de infraestrutura como estradas e linhas de transmissão energética, são os que geram mais problemas.
[
269
]
[
139
]
[
270
]
[
271
]
Muitas comunidades já tomaram conhecimento, através dos civilizados, do
aquecimento global
e dos prejuízos que o fenômeno vem causando para o meio ambiente em todo o mundo, danos que eles corroboram através de observações diárias, sofrendo com as mudanças nas chuvas, com a redistribuição ou declínio de espécies selvagens, e com as secas mais intensas, que prejudicam suas economias baseadas na terra.
[
272
]
Outras dificuldades advêm dos múltiplos modelos produtivos adotados tradicionalmente pelos vários povos, complicando o estabelecimento de políticas consistentes. Em geral suas economias se caracterizam pela ausência de instituições formais de produção e distribuição de produtos, pelo baixo grau de especialização, pelo baixo nível tecnológico, pelos mercados pequenos, por um sistema de trocas não monetárias, pela ênfase (ainda que não exclusiva) na
economia de subsistência
, e pela complexidade da integração com o sistema capitalista.
[
263
]
Contudo, uma expressiva parcela da população autodeclarada como indígena, calculada em 2006 entre 100 e 190 mil pessoas (mas podem ser até 350 mil) já não vive em reservas,
[
188
]
[
273
]
e está plenamente imersa no sistema econômico
capitalista
, embora em geral, com muito menos preparo, atua em grande desvantagem em relação aos seus irmãos civilizados e obtém resultados bem mais fracos. A maioria acaba virando mão de obra barata e termina seus dias em
favelas
nos grandes centros urbanos, incapaz de conquistar uma vida digna.
[
263
]
[
188
]
[
265
]
[
274
]
Representante fulni-ô fala da cultura de seu povo para escolares no
Jardim Botânico de Brasília
, em comemoração do
Dia do Índio
, 2011
Para ajudar a resolver esses desafios o governo e entidades privadas, em parceira com as comunidades, estão desenvolvendo vários projetos para o desenvolvimento econômico e social das tribos, enfocando o
manejo sustentável
dos recursos naturais, a organização de
cooperativas
, grupos de artesãos e outras formas de
economia solidária
, e articulação de um sistema de comércio integrado a
economia formal
, colocando excedentes de colheitas ou artefatos étnicos em feiras regionais, o que tem sido importante fonte de renda para muitas comunidades.
[
263
]
[
271
]
[
275
]
[
276
]
Embora essas iniciativas atendam a demandas urgentes de sobrevivência, têm o inconveniente de estreitar cada vez mais os laços dos indígenas com a civilização, dissolvendo progressivamente seus costumes tradicionais, um fenômeno que causa por si diversos efeitos deletérios sobre os indivíduos e grupos, como já foi explicado.
[
263
]
[
277
]
Mas segundo Ana Carolina Coimbra, trabalhando sobre o caso dos
fulni-ô
mas descrevendo uma conjuntura que é comum, disse que os índios têm procurado absorver essas mudanças legítima e criativamente: "Este tipo de ação está inserido em um processo de mudança cultural que implica na ressignificação de elementos externos à cultura a partir de uma lógica própria. Neste caso específico, o contexto em que estão inseridas as comunidades indígenas as leva à apropriação de um discurso político étnico visando sua autodeterminação e autogestão, e a uma consequente revalorização cultural".
[
277
]
Educação
[
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|
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]
Ver artigo principal:
Educação indígena
Antonio Ruiz de Montoya
:
A Arte da Língua Guarani
, 1724, um dos vários manuais técnicos produzidos pelos missionários para seus propósitos educativos
Originalmente os ensinamentos eram transmitidos de pais para filhos em situações práticas, mas também através da arte, de lendas, mitos e
ritos de passagem
de caráter religioso e público, e de fato toda a comunidade participava da educação de suas crianças.
[
37
]
[
40
]
[
52
]
[
60
]
[
110
]
A partir da colonização europeia, todo esse sistema se viu na contingência de mudar, introduzindo-se o ensino por mestres especializados, os professores, com disciplinas compartimentalizadas e de fraca vinculação com a realidade de suas vidas e sua herança cultural. Nos tempos coloniais, praticamente, a educação que se ministrou aos índios se resumiu ao
catecismo
religioso, utilizando frequentemente formas artísticas ocidentais para seduzi-los para
Cristo
, como o teatro e a música, que fascinavam os povos nativos, e algumas letras mais avançadas eram dadas aos caciques e seus filhos. Os demais podiam ser preparados em ofícios mecânicos e artísticos e técnicas agropastoris. Lógico, buscou-se a abolição da diversidade linguística em favor de uma unidade lusófona. Não obstante, durante muito tempo chegaram a se falar
línguas crioulas
de vasta ocorrência geográfica, híbridos compostos de várias línguas indígenas regionais em mistura ao português, como a
língua geral paulista
e o
nheengatu
, que produziram prolífica literatura devocional e técnica. Porém, foram etapas intermédias num projeto de uniformização linguística e educativa total, consagrado pelo
Marquês de Pombal
em meados do
século XVIII
. Neste processo, muitos elementos culturais e práticas educativas originais se desvirtuaram. Desde o início se patentearam diferenças culturais aparentemente intransponíveis, e a adequação do sistema educativo ocidental à transmissão do pensamento e da cultura nativa tem sido desde então objeto de perene controvérsia e fonte de conflito.
[
48
]
[
278
]
[
279
]
[
280
]
[
281
]
[
282
]
[
283
]
[
284
]
O governo delimitou seu campo através de vários instrumentos legais, especialmente a
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
, e instituições específicas sob o comando atualmente do
Ministério da Educação
em parceria com a Funai,
[
285
]
tem destinado grandes recursos para a educação dos índios nas reservas e fora delas, inclusive em cursos superiores, e também dos não índios a respeito da realidade nativa. Os próprios indígenas estão envolvidos nestas atividades educacionais de várias maneiras, agrupando-se em associações para preservação e divulgação de tradições, formando-se professores e produzindo material didático em línguas nativas, mas no contexto da educação formalizada e homogeneizadora do Brasil moderno, tem sido complexa a tarefa de preservar tradições para os que vivem mergulhados nelas mas as estão perdendo, e traduzi-las com fidelidade para uma outra cultura,
[
104
]
[
285
]
[
286
]
[
287
]
e ainda parecem prevalecer apresentações estereotipadas e simplistas, reiterando conceitos ultrapassados e atrasando os avanços em direção ao entendimento mútuo.
[
288
]
[
289
]
Deve ser notado que o programa de educação indígena do governo tem um perfil flexível, buscando adaptar o modelo padronizado às necessidades das comunidades, preservando as línguas, usando materiais preparados no local por professores índios, elaborando currículos diferenciados, incluindo a comunidade no estabelecimento de parâmetros e adequando o calendário escolar ao ritmo de vida tradicional das tribos.
[
285
]
A meta do governo é que todos os professores das escolas em reservas sejam índios.
[
290
]
Mas além da problemática implícita no modelo educativo, as próprias infraestruturas educativas nas aldeias são precárias. Segundo estudo de Rangel & Liebgott,
Índias
canela
em escola de aldeia maranhense
Escultura em pedra da cultura sambaqui pré-cabralina, representando um tubarão. Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas
"Os dados indicam que não há escolas que assegurem a conclusão do
ensino fundamental
e que, na quase totalidade das comunidades indígenas, não há
ensino médio
. Impondo, com isso, que os estudantes indígenas frequentem as escolas dos municípios, onde lhes são negados os direitos a uma educação escolar diferenciada. Os dados apresentados pelo CIMI indicam que a política de educação escolar indígena está relegada, basicamente, aos municípios, que impõem as condições, os profissionais e os currículos escolares. Os chamados territórios etnoeducacionais, apresentados pelo Ministério da Educação, são ainda uma mera ficção, ou seja, não estão em funcionamento, os povos indígenas não os conhecem e sequer sabem como poderão ser implementados".
[
291
]
As carências envolvem falta de instalações adequadas para as aulas, de transporte, de merenda escolar, de professores e materiais didáticos. Além da precariedade da formação de profissionais que seja capacitados a atuar junto a essas comunidades, seja ativamente na sala de aula, seja compondo a equipe pedagógica necessária para se desenvolver a educação escolar, como aponta Da Cunha em sua entrevista: Educação escolar indígena em Roraima: formação docente e escolas e específicas e diferenciadas.
[
292
]
A educadora Iara Bonin afirmou que "para muitos estados e municípios, a oferta de educação escolar indígena específica e diferenciada é vista como uma regalia, uma concessão, e não como um direito dos povos indígenas". Também há denúncias de alijamento das comunidades nos processos decisórios e de implementação de projetos educativos sem o necessário consentimento prévio dos povos. Alunos que conseguem progredir até os cursos superiores também são afetados, sendo ouvidas contínuas queixas de atrasos no repasse das bolsas de estudo e outros auxílios, criando dificuldades de transporte, moradia e alimentação, importantes para assegurar sua permanência nas universidades.
[
293
]
A
alfabetização
dos indígenas nos
vernáculos
, paralelamente ao trabalho sistematizador dos
linguistas
, também tem tido o efeito de gerar literatura, fato de fundamental importância num contexto de progressiva dissolução e esquecimento das tradições e mitos, e tem capacitado os índios para registrar de maneira duradoura sua própria versão da História e descrever suas visões de mundo com autenticidade, corrigindo interpretações distorcidas dos civilizados, possibilitando além disso a preservação das próprias línguas e a maior divulgação de suas culturas. Fortalece ainda o senso de identidade das tribos, lhes infunde mais orgulho de suas origens e dá bases para eles elaborem formas próprias de
pedagogia
.
[
294
]
[
295
]
Algumas populações indígenas lutam para garantir espaço nas universidades. Em Manaus, por exemplo, foi conquistado o acesso e permanência na Universidade Federal do Amazonas por meio de ações afirmativas. A fim de solucionar essas questões de permanência, a conquista não aconteceu apenas por garantir vagas ao indígena, novas disciplinas foram criadas a fim de atender a realidade dos indígenas, não apenas no sentido de prover discussões mais significativas à sua realidade, mas também para produzir um conhecimento que previamente não acontecia. Também foi garantida estrutura física e financeira para que eles pudessem morar perto da universidade, resolvendo o problema de longas distâncias que impossibilitam o acesso ao estudo. Alguns cursos na área da pós-graduação também contam com espaço para indígenas, dessa forma, democratizando a educação.
[
296
]
Para os civilizados, o assunto indígena faz parte hoje do currículo escolar brasileiro desde o nível primário,
[
297
]
e permanece muito explorado até as pós-graduações, havendo muitos museus, pontos de cultura, grupos e instituições que se dedicam a conservar e divulgar a riqueza e a diversidade do patrimônio arqueológico, histórico e artístico dos índios, bem como de sua
cultura imaterial
, que estão seriamente ameaçados.
[
96
]
[
111
]
[
298
]
[
299
]
Incontáveis programas de estudos acadêmicos em andamento objetivam melhor entender a sociedade indígena para melhor dialogar com ela, e também pelo mérito do seu interesse intrínseco, que tem sido reconhecido por especialistas como imenso, podendo dar contribuição valiosa para um mundo que hoje se debate em uma profunda crise de valores humanos, sociais e ecológicos.
[
96
]
[
136
]
[
298
]
[
299
]
[
300
]
[
301
]
[
302
]
Saúde
[
editar
|
editar código
]
Ver artigos principais:
Pajé
,
Medicina indígena
,
Saúde dos índios no Brasil
,
Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas
,
Distrito sanitário especial indígena
, e
COVID-19 e povos indígenas no Brasil
Indígenas em luta esportiva, exibindo seus corpos fortes e bem constituídos
Abertura da 5ª Conferência Nacional de Saúde Indígena, 2013
Indígenas de várias etnias da
reserva do vale do Javari
invadem a tenda Revolução Cubana e o Centro de Imprensa do
Fórum Social Mundial
pedindo mais saúde e denunciando várias mortes por hepatite nos últimos anos, 2009
Sabe-se que os índios gozavam originalmente de boa saúde, tendo corpos mais fortes e robustos do que os europeus,
[
303
]
exercitados nas artes militares, na produção de artefatos e construção de cabanas, nas contínuas atividades físicas em seu cotidiano de estreito contato com a Natureza, movimentando-se sempre a pé ou em canoas de remo, na caça e pesca, na agricultura, e nos esportes como a
huka-huka
e o
RáRá
[
304
]
(lutas), o
cabo-de-guerra
, o
xikunahity
(um "futebol" em que a bola é impulsionada exclusivamente por cabeceios), a corrida carregando toras de madeira e o
rõkrã
(um jogo com bastões e uma pelota).
[
305
]
Sua
longevidade
nos tempos pré-cabralinos é incerta, mas sobrevivem relatos dos primeiros exploradores, no entanto, afirmando que muitos viviam até velhice avançada, conhecendo até quatro gerações de descendentes.
[
303
]
Suas práticas de cura tinham caráter
xamanístico
e ritual, possuindo conotações mágicas e religiosas, e as doenças frequentemente eram atribuídas a origens sobrenaturais. Em sua medicina usavam ervas, produtos animais e procedimentos físicos invasivos, que podiam incluir sangrias e escarificações.
[
306
]
[
307
]
Muitas vezes o atendimento de saúde tradicional distribuía funções entre várias figuras além do curador principal, o pajé, incluindo rezadores e benzedeiras, conhecedores de ervas e parteiras. Diversos de seus conhecimentos foram aproveitados pelos europeus desde o início e hoje estão sendo estudados pela ciência e em parte incorporados ao sistema de saúde indígena organizado pelo governo.
[
308
]
[
309
]
[
310
]
Como já foi dito, depois da chegada dos portugueses inúmeras epidemias de doenças desconhecidas na América dizimaram populações inteiras, entre elas
malária
,
tuberculose
, infecções respiratórias,
hepatite
e
doenças sexualmente transmissíveis
.
[
311
]
[
312
]
O problema continua, e de acordo com o
Instituto Socioambiental
é um dos tópicos mais delicados de toda a questão indígena brasileira.
[
313
]
Desde sua origem a Funai se responsabilizou pelo atendimento sanitário dos índios, envolvendo para isso diversos outros órgãos e instituições, entre elas a
Fundação Nacional de Saúde
(Funasa), que gerencia a seção indígena do
Sistema Único de Saúde
. Em 1999 o sistema foi reorganizado e descentralizado, criando-se o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena e 34 Distritos Sanitários Especiais, com bons resultados, mas historicamente o atendimento sempre foi no geral insatisfatório, e as críticas proliferavam. Noticiavam-se casos de retorno epidêmico de doenças já controladas, sucateamento da infraestrutura, corrupção oficial, autoritarismo e descaso no atendimento e excesso de burocracia. A
desnutrição
infantil se tornava uma ameaça séria, vitimando crescente número de crianças. A situação calamitosa invocou a intervenção do Ministério Público.
[
312
]
[
313
]
Em 2010, depois de pressão das comunidades, o governo criou uma secretaria especial para tratar da questão, vinculada diretamente ao
Ministério da Saúde
, que encampou a administração dos Distritos Sanitários. Estes órgãos atendem os casos mais simples. Quadros complexos são encaminhados a hospitais regionais mais aparelhados. Os Conselhos Indígenas de Saúde, que contam com membros das comunidades, controlam o funcionamento do sistema de saúde voltado para os índios. Na prática, porém, o setor, assim como todo o resto da questão indígena, está sempre enfrentando carências múltiplas, e sendo centro de inúmeras críticas e controvérsias, mesmo internas.
[
313
]
[
314
]
Atualmente o principal marco legal específico para a área de saúde é a
Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas
, regulamentada pela
Portaria nº 254
, de 31 de janeiro de 2002.
[
311
]
Dados do governo de 2006 apontam que entre os problemas de alta ocorrência estão
anemia
,
diarreia
,
tuberculose
, doenças de pele, infecções respiratórias, e doenças crônicas como
obesidade
,
hipertensão arterial
e
diabetes mellitus
. Cerca de um terço das reservas enfrenta dificuldades de abastecimento alimentar, gerando
desnutrição
.
[
264
]
Segundo pesquisa da Unesco em parceria com o Ministério da Cultura e o Museu Nacional, nos últimos anos se verifica uma transição epidemiológica entre os povos nativos. Se antes predominavam as doenças infecciosas e parasitárias, agora estão em rápida ascensão as
doenças crônicas
não transmissíveis e as doenças sociais.
[
312
]
Têm sido registrados crescentes taxas de transtornos
psicológicos
e
psiquiátricos
, bem como de
suicídios
,
homicídios
,
abuso sexual
,
violência doméstica
,
drogadição
e
alcoolismo
. A perda de suas terras e a proximidade com a civilização, que levam à desagregação das culturas, são as principais causas apontadas.
[
306
]
[
307
]
[
312
]
Toda a questão é complicada pela falta de conhecimentos mais sólidos sobre a
epidemiologia
, os hábitos de alimentação, higiene corporal e conservação da saúde entre os povos indígenas.
[
264
]
[
307
]
[
312
]
Embora o governo subsidie diversos projetos acadêmicos de pesquisa,
[
312
]
[
315
]
ele mesmo reconheceu amplas carências, como consta na sua
Política Nacional
:
"Não se dispõe de dados globais fidedignos sobre a situação de saúde (dos povos indígenas), mas sim de dados parciais, gerados pela Funai, pela Funasa e diversas organizações não governamentais ou ainda por missões religiosas que, por meio de projetos especiais, têm prestado serviço de atenção à saúde dos povos indígenas. Embora precários, os dados disponíveis indicam, em diversas situações, taxas de
morbidade
e
mortalidade
três a quatro vezes maiores que aquelas encontradas na população brasileira geral. O alto número de óbitos sem registro ou indexados sem causas definidas confirmam a pouca cobertura e baixa capacidade de resolução dos serviços disponíveis".
[
307
]
Índios em um laboratório observando
plasmódios
da malária ao microscópio
Para o antigo diretor do Departamento de Saúde Indígena da Funasa, Wanderley Guenka, as maiores dificuldades vêm da multiplicidade de realidades culturais entre os vários povos, impedindo a criação de uma política unificada de saúde, a falta de preparo técnico, as grandes distâncias e dificuldades de acesso às reservas mais remotas, a precária infraestrutura em muitas aldeias e a crônica escassez de verbas.
[
316
]
Em 2012 a presidente Dilma Rousseff criou um comitê espacial para dar maior atenção ao problema, com foco no atendimento básico, incluindo
exame pré-natal
,
vacinação
, avaliação nutricional, controle do crescimento e desenvolvimento, consultas médicas e odontológicas, testes para
HIV
,
sífilis
e
hepatites
.
[
317
]
Entre as conquistas recentes no setor podem ser citadas o expressivo crescimento populacional nas últimas décadas,
[
312
]
a formação de muitos profissionais de saúde indígenas, que passaram a se encarregar da maior parte do atendimento básico nas aldeias, e a importante redução na
mortalidade infantil
, que caiu de 74,61 óbitos por mil nascidos vivos em 2000, para 46,73 em 2008, resultado da integração de uma série de programas de saúde, desenvolvimento econômico e assistência social. No início de 2008 atuavam na área indígena 12 895 profissionais de saúde, com 1 681 de nível superior e 11 214 de nível médio.
[
311
]
Evangelização e aculturação
[
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|
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]
Como já foi descrito, os portugueses desde os primórdios da colonização buscaram transformar os indígenas em bons cristãos. Muitos de seus costumes eram vistos como imorais e pecaminosos, e suas religiões, como primitivas, supersticiosas e obscuras, quando não demoníacas, e por isso era preciso a todo custo "salvá-los" de sua forma de vida. Isso não mudou muito. A despeito de todos os problemas que isso causou historicamente, grande parte da população indígena brasileira permanece ainda hoje sob forte pressão de propagandistas de outras religiões, que continuam tentando convertê-los às suas fileiras sob os mais variados argumentos, mas em geral tentando assimilá-los para a órbita da civilização e revelando uma visão subjacente preconceituosa, ignorante e prepotente sobre suas práticas religiosas tradicionais, fazendo-os ouvir aquele mesmo tipo de
pregação
de séculos passados que, embora muitas vezes realizada com boa intenção, desvirtua ou substitui suas crenças originais e provoca profundos conflitos de consciência nos indivíduos. Tenta-se "levar a palavra de Deus" ao índio como se ele não tivesse suas próprias figuras divinas e seus preceitos, nunca tivesse ouvido falar em um poder espiritual, e tivesse
pedido
a
evangelização
, querendo-se homogeneizar a espiritualidade nativa à sombra do
cristianismo
, quase invariavelmente considerado "superior".
[
42
]
[
318
]
[
319
]
[
320
]
[
321
]
O cacique
Iauanauá
Biraci dá um eloquente testemunho:
"Convenceram todo mundo a ser crente. Botaram uma ameaça no nosso coração, dizendo que sem essa religião todo mundo iria para o inferno, que nós não teríamos salvação, não seríamos capaz de ser um povo feliz. Que nós vivíamos com o demônio. Que nossos rituais e nossas crenças eram coisas do demônio. [...] Eram racistas, não gostavam da gente, pareciam que tinham nojo de índio. Não deixavam índio andar no mesmo barco com eles. Não deixavam comer junto. Nos tratavam mal. Sem respeito. Principalmente os americanos. Eram muito arrogantes. A gente sofria muito. A gente tinha vergonha de ser a gente. [...] Nós éramos proibidos, através da intimidação, de realizar nossos rituais. Do lado da missão estavam os seringalistas, seringueiros. Se aliavam com todo mundo. E a igreja fazia a gente aceitar ser dominado. Além da evangelização, dessa descaracterização cultural do nosso povo, ainda mantinham a presença dos não indígenas dentro da terra. Faziam a gente aceitar nossa condição de escravo".
[
322
]
Encontro religioso guarani no Mato Grosso do Sul
Representantes do Conselho Indigenista Missionário no lançamento do relatório
Violência Contra os Povos Indígenas 2012
Porém, religiosos e associados ao trabalho missionário muitas vezes argumentam que a evangelização contemporânea, diferente da histórica, é oferecida como uma opção e não um imperativo, que pode ajudar os índios em sua conscientização política e em suas lutas sociais, e pode capacitá-los para participar da sociedade brasileira de forma digna e construtiva.
[
323
]
[
324
]
[
325
]
Às vezes essas missões propõem ajudar os índios na reconstrução de tradições religiosas perdidas.
[
319
]
[
326
]
É verdade que diversas denominações têm oferecido importante ajuda aos indígenas em suas demandas e têm evitado muito sofrimento e injustiças,
[
197
]
[
319
]
[
327
]
mas isso não anula o fato de que a presença missionária nas aldeias tem sido sempre fator de profunda modificação cultural e mesmo econômica,
[
146
]
[
319
]
[
320
]
e é a causa até hoje de permanente tensão, distúrbios sociais e de disseminação de diversas doenças.
[
328
]
[
318
]
[
329
]
É de notar que a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB), entidade
católica
, que através do
Conselho Indigenista Missionário
tem sido uma das mais aguerridas e influentes defensoras dos indígenas,
[
329
]
[
330
]
embora reconhecendo que as cosmovisões indígenas são "a alma de suas culturas" e que "a convicção de cada pessoa tem uma dignidade própria", e afirmando que não visa a
conversão
impositiva, não obstante coloca a evangelização dos povos nativos como uma de suas metas, defende o
magistério universal
da
Igreja Católica
, entende a humanidade toda como o "
povo eleito
",
Jesus
como o primeiro dos missionários, cujo exemplo deve ser seguido, e
Nossa Senhora
como mãe de "todos os povos".
[
331
]
[
332
]
O papa
Bento XVI
, em discurso proferido em
Aparecida
, disse que "o anúncio de Jesus e do seu
Evangelho
não supôs, em nenhum momento, uma alienação das
culturas pré-colombianas
, nem foi uma imposição de uma cultura estranha".
[
333
]
Diante de múltiplos protestos, no entanto, dez dias depois ele se retratou, reconhecendo o lado sombrio dessa história.
[
334
]
A posição do CIMI não está livre de problemas e ambiguidade,
[
330
]
[
335
]
mas tem se caracterizado pelo progressivo distanciamento do
proselitismo
, concentrando-se na luta política, no respeito às diferenças e no assistencialismo, ao contrário das missões das ordens e congregações.
[
322
]
[
336
]
Mesmo com este direcionamento oficial, o destacado teólogo
Paulo Suess
reconhece que o proselitismo ainda subsiste: "Nunca oficialmente. Nunca vão dizer isso abertamente em uma assembleia do CIMI. Mas na aldeia eles podem agir assim".
[
322
]
De qualquer forma, na opinião do antropólogo Marcos Pereira Rufino, em anos recentes a atuação católica tem sido a menos problemática entre todas as denominações cristãs, enquanto no trabalho das outras a situação é bem mais complicada, com denúncias de violações de direitos humanos e outras irregularidades se multiplicando.
[
336
]
Segundo noticiou em 2007 o portal interdenominacional Gospel+,
"O trabalho de
catequese
há décadas deixou de ser uma exclusividade da Igreja Católica, que perdeu terreno nessa área. Pastores
evangélicos
tomaram seu lugar e hoje operam um vigoroso esforço de conversão em massa. Já superaram os católicos no número de missionários. [...] Existem 222 tribos no país. Os católicos estão em apenas 107 delas. Protestantes de denominações como
Batista
,
Adventista
,
Quadrangular
e
Assembleia de Deus
, por exemplo, já estão presentes em 153. Seu objetivo é claro: chegar a cada etnia 'não alcançada' por Jesus, fincar uma igreja e conduzi-la pelo que consideram o caminho da salvação. [...] Em 1972 (a Igreja Católica) criou o CIMI para gerir a relação com os índios, e passou a pregar que a cultura nativa deveria ser preservada, inclusive em suas crenças. Foi um flanco aberto para que os missionários evangélicos avançassem em peso por entre as aldeias mais remotas do país. [...] Sua estrutura
logística
também salta aos olhos. Para levar os pastores a cada canto do país, os evangélicos contam com a ONG Asas de Socorro, que tem onze aviões, sendo três hidroaviões que não necessitam nem de pista de pouso. Com uma engrenagem assim, não há pajé que resista".
[
337
]
Em 1991 a Funai determinou a retirada de todos os missionários das reservas, diante de inúmeras denúncias de genocídio, escravidão, servidão, exploração sexual e monopolização do acesso à saúde e à educação,
[
328
]
e desde 1994 somente podem entrar nas reservas missionários convidados pelos índios.
[
338
]
Para contornar o interdito, muitas vezes são oferecidos às tribos serviços e benesses em troca do convite,
[
339
]
ou as lideranças cristãs trabalham para formar missionários índios, que por sua vez podem atuar livremente nas reservas.
[
320
]
[
340
]
Edward Luz, presidente da organização não denominacional Missão Novas Tribos do Brasil,
[
340
]
acusada de muitas irregularidades, inclusive de grande extermínio entre o povo
zo'é
nos anos 80, infectado por doenças que eles levaram,
[
328
]
[
341
]
foi explícito em suas intenções dizendo que "o Estado não pode impedir que um índio se encontre com outro índio.... A maioria desses índios voltará ao seu povo para pregar o
Evangelho
. Contra essa força não haverá resistência (da Funai)".
[
340
]
"Se (o governo) proíbe pregar o Evangelho, está proibindo a liberdade da adoração; proíbe o autor do Evangelho, o senhor Jesus; e proibiu a
Bíblia
, proibiu o Deus criador. E nós partimos para um confronto".
[
328
]
No
4º Congresso Brasileiro de Missões
, o
presbiteriano
Ronaldo Lidório declarou que "precisamos de mais 500 novos missionários para pregar o Evangelho a todos os povos indígenas".
[
340
]
A Associação de Missões Transculturais Brasileiras e o Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas, com apoio da Associação Nacional de Juristas Evangélicos, divulgaram em 2013 uma nota oficial em protesto contra os obstáculos à ação missionária entre os índios.
[
325
]
Santuário dos Pajés
na terra indígena no
Setor Noroeste
de Brasília
Capela cristã em terras
achanincas
, no Acre
Propostas de autorizar legalmente a atuação missionária já chegaram ao Congresso Nacional e desencadeiam grande polêmica, pois o Brasil é um
Estado laico
, e a imposição da evangelização sobre os índios, violando a
liberdade de culto
, é inconstitucional, conforme declarou Antônio Oneildo Ferreira, presidente da seccional da
Ordem dos Advogados do Brasil
em Roraima, além de inevitavelmente levar à
aculturação
.
[
342
]
A
bancada evangélica
, aliando-se à
bancada ruralista
, adquiriu recentemente grande influência parlamentar.
[
343
]
[
344
]
[
345
]
O jornalista
Felipe Milanez
denunciou, juntando-se a um grande coro de críticos, que a
Comissão de Direitos Humanos e Minorias
da
Câmara dos Deputados
, que esteve em 2013 sob o comando do controverso pastor evangélico
Marco Feliciano
, "segue misturando religião com Estado, rasgando a laicidade, e promovendo violência contra as minorias. Os missionários tentam pressionar o governo para que possam pregar o Evangelho nas aldeias, promovendo assim o proselitismo religioso. Querem pregar de forma aberta, pois escondido já o fazem".
[
328
]
Outros pesquisadores e jornalistas confirmam a pregação clandestina, e como foi dito as próprias igrejas, ignorando todos os impedimentos legais, reconhecem que ela continua em progresso,
[
320
]
[
339
]
[
340
]
[
346
]
ocorrendo até mesmo denúncias de perseguições a pajés e disputas por aldeias entre as várias denominações,
[
326
]
[
347
]
uma situação que remonta aos primórdios da penetração
protestante
no país.
[
326
]
[
348
]
Segundo a antropóloga Ana Paula de Oliveira, as dificuldades impostas oficialmente para a evangelização, ao contrário de inibi-la, a estimulam, pois para muitos missionários quanto maiores as provações mais gloriosos serão os resultados espirituais, sentindo-se engajados em verdadeira
cruzada
.
[
320
]
Mas a questão não é simplesmente polarizada e está cheia de nuanças e contradições. Antropólogos e outros ativistas têm assumido a religião indígena e fazem proselitismo dela.
[
319
]
Muitas comunidades adotaram sinceramente o cristianismo e o praticam há tempo, exigindo a presença de padres e pastores.
[
322
]
[
337
]
Somente de índios evangélicos existem 210 mil, segundo o Censo de 2010.
[
338
]
Estes também defendem o proselitismo sobre outras etnias, se orgulham da conversão e muitas vezes confundem benefícios sociais recebidos com religião, acreditando que "somente depois da
Bíblia
o desenvolvimento chegou às aldeias, que hoje têm luz elétrica e água encanada". Basílio Jorge, índio e hoje pastor evangélico, ilustra a profundidade da transformação cultural condenando a antiga e inocente nudez dos povos: "É indecente as mulheres usarem vestido curto ou short. O cabelo delas também deve ser comprido. Está tudo escrito na
Bíblia
".
[
337
]
Outras comunidades absorveram parte da religião estranha e a adaptaram para a formação de novos cultos
sincréticos
, e essas formas religiosas adquirem importante papel em suas vidas.
[
146
]
[
319
]
[
320
]
Ao mesmo tempo, missionários frequentemente são acusados de entrar em conluio com a Funai e outros organismos a fim de desestabilizar o diálogo entre índios e civilizados,
[
349
]
[
350
]
"semeando ventos que vão produzir uma tempestade no campo", como disse o jornalista Robson Bonin em artigo na revista
Veja
.
[
349
]
Identidade indígena
[
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|
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]
Tem emergido um debate sobre o que é "ser indígena". Para os ocidentais os indígenas de costume ainda são identificados como integrantes de culturas silvícolas e como indivíduos seminus cobertos de pinturas corporais e adereços plumários. Contudo, o contato com a civilização dominante levou muitos a absorver elementos culturais e hábitos ocidentais — roupas, língua, moradia em casas, uso de aparelhos eletrônicos, frequência em universidades, etc. —, pondo em jogo a questão de até que ponto um indígena permanece identificado como indígena num contexto de ampla e rápida transformação sociocultural. Muitas vezes essa incorporação de ocidentalismos por indígenas é usada como justificativa para desqualificar sua condição de indígena e até mesmo para negar o direito à terra e o acesso a benefícios governamentais. A conceituação de "indígena" ainda está de modo geral dependente de um estereótipo físico e/ou cultural que tem implicações
racistas
e que remete ao passado, e que desconsidera o fato de que as culturas originais, embora mantenham um caráter tradicionalista, nunca foram estáticas — elas evoluíram. Este estereótipo foi impresso massivamente nas comunidades por força da opressão colonialista. Tentativas de libertação desses preconceitos são um fenômeno recente e têm gerado controvérsia, mas muitos indígenas, com base em sua ancestralidade e numa percepção dinâmica de cultura, já começam a reivindicar o direito à diversidade como parte essencial do direito à autodeterminação, o direito de permanecerem sendo "indígenas" mesmo que sua cultura e aparência se modifiquem.
[
351
]
[
352
]
Estes argumentos são uma das bases dos movimentos de reivindicação identitária dos
povos emergentes
, mas não só deles.
[
352
]
Dia dos Povos Indígenas
[
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|
editar código
]
Ver artigo principal:
Dia dos Povos Indígenas
Celebração do 19 de abril na Terra Indígena Cantagalo, Rio Grande do Sul, em 2018. Vídeo.
O Dia dos Povos Indígenas, 19 de abril, foi criado pelo presidente brasileiro
Getúlio Vargas
através do
decreto-lei
5.540, de 1943, então com o nome Dia do Índio,
[
353
]
relembrando o dia, em 1940, no qual várias lideranças indígenas do continente resolveram participar do
Congresso Indigenista Interamericano
, realizado no
México
. Eles haviam
boicotado
os dias iniciais do evento, temendo que suas reivindicações não fossem ouvidas pelos "homens brancos". Durante este congresso, foi criado o
Instituto Indigenista Interamericano
, também sediado no México, que tem, como função, zelar pelos direitos dos indígenas na América. O Brasil não aderiu imediatamente ao instituto, mas, após a intervenção do
Marechal Rondon
, apresentou sua adesão e instituiu o Dia do Índio no dia 19 de abril.
[
354
]
O nome da data foi alterado em 8 de julho de 2022 para Dia dos Povos Indígenas através da Lei 14.402. O projeto de alteração partiu da deputada
Joênia Wapichana
, com a justificativa de que o termo "índio" estimula a perpetuação de estereótipos e é considerado pelos povos originários como preconceituoso, mas também serve para deixar explícita a diversidade dos povos que habitam e habitaram o Brasil. O projeto foi vetado pelo então presidente Jair Bolsonaro, mas o Congresso derrubou o veto no dia 5 de julho.
[
355
]
Ver também
[
editar
|
editar código
]
Lista de línguas indígenas do Brasil
Classificação dos povos indígenas da América
Lista de guerras indígenas no Brasil
Povos indígenas no Nordeste do Brasil
Mário Juruna
Joênia Wapichana
Alegoria do Indígena (Brasil)
RáRá
(modalidade de luta)
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Povos indígenas no Brasil
. Instituto Socioambiental.
Ricardo, Beto & Ricardo, Fany (eds.); Ricardo, Fany (coord.).
Povos indígenas no Brasil: 2006/2010
. Instituto Socioambiental, 2011.
Conselho Indigenista Missionário
Museu do Índio
Sobre o nome dos povos
Os Brasis e suas Memórias
Coleção Etnográfica Carlos Estevão
(
Museu do Estado de Pernambuco
)
Filmes
Children of the Amazon, a documentary on indigenous peoples in Brazil
Documentary on Pacification in Amazonia
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Povos indígenas do Brasil
Grupos étnicos
Tronco tupi
Mondés
Aruás
Cintas-largas/Matetamãe
Ikolen
Tupis-guaranis
Amanaiés/Araradeuas
Anambés
Apiacás
Aquaua (
Suruís-aiqueuaras
-
Assurinis do Tocantins
)
Arauetés/Bïde
Assurinis do Xingu/Awaetes
Avás-canoeiros/Carijós
Awá-Guajá
Carijós
*
Cauaíbes
(
Uru-eu-uau-uaus
)
Guaranis
(
Caiouás/Pãi-taviterã
-
Mbiás
-
Nhandevas
)
Guajajaras/Tenetearas
Tupis
* (
Tupinambás
* -
Tupiniquins
-
Caetés
* -
Tamoios
* -
Potiguaras
-
Temiminós
* -
Tabajaras
*?)
Outros
Curuaias
Mundurucus
Tapajós
*
Macro-jê
Jês
Aquém
(
Xavantes
-
Xerentes
)
Caingangues
Tapaiúnas
Timbiras
(
Akrãtikatêjê-gavião
-
Apinajés
-
Apaniecras-Canelas
-
Craós
-
Cricatis
-
Krenyê
-
Krepumkateyê
-
Kyikatejê-gavião
-
Paracatejê-gavião
-
Pucobié-gavião
-
Rancocamecras-canelas
Povo iny
Carajás
Javaés
Xambioás
"
Tapuias
"*
Aimorés
*
"
Botocudos
"*
Cariris
*
Geréns
*
Tarairiús
*
Outros
Coropós
*
Crenaques
Goitacás
*
Maxacalis
Pataxós
Puris
*
Ricbactas
Outros grupos
Arauás
Banauás
Jamamadis
Aruaques
Apurinãs/Popukares
Ashaninca
Baníuas/Walimanais
Barés/Haneras
Enauenê-nauês
Guanás
Exoaladis
* -
Exoaladis
* -
Quiniquinaus
-
Terenas
Manaós
*
Uapixanas
Caribes
Aparaís
Bacairis/Kurâs
Galibis do Oiapoque/Calinãs
Cariris
?*
Aconãs
Aticuns-umãs
Caimbés
Calabaças
Carapotós
Cariris-xocós
Jucás
Pancarás
"
Pataxós-hã-hã-hães
"
Quiriris
Tingui-botós
Trucás
Tumbalalás
Uassus/Wassus
Xucurus-cariris
Charruas
*
Guenoas
*
Minuanos
*
Embaiás
Cadiuéus
Beaqueos
*
Catagueos
*
Macus
Dâw
Hupdás
Camãs
Nadobs
Iuhupdes
)
Panos
Shawadauas
Kuntanawa
Tucanos
Arapaços
Barás/Waípinõmakãs
Barasanas/Panenoás
Desanos
Tuparis
Acuntsu
Ajurus
Outros
Aicanãs
Aranãs
Araras/Ukarãngmãs
Araras do Aripuanã
Araras do Maia
Aricapus
Auetis/Enumaniás
Bororos/Boes
"
Bugres
"
Caiapós
"
Canoeiros
"
Catuquinas
Chiquitanos/Chiquitos
"
Coroados
"
Crateús
*
Fulniôs
Galibis-maruornos/Aruás
Guaianás
*
Guaicurus
*
Guatós
Ianomâmis
Djeoromitxí/Jabutis
Javaés
Quasas
Curripacos
Kujubim
Muras
Paiaguás
Pancararus
Saparás
Ticunas
Tremembés
Tuxás
Xocós
Xucurus
Culturas
arqueológicas
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/
Marajoara
Umbu
Vieira
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*: extintos; ?*: reivindicados; "aspas": grupos heterogêneos
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Línguas indígenas do Brasil
Línguas
274
Tronco Tupi
Família mondé
Cinta-larga
Família mundurucu
Mundurucu
Curuaia
Família ramarrama
Karo
Família tupi-guarani
Aquaua
Guajá
Guarani
Caiouá
-
Mbiá
-
Nhandeva
Cauaíbe
Tupi
Nheengatu/Língua geral amazônica
Tronco Macro-Jê
Família bororo
Bororo
Família carajá
Javaé
Família guató
Guató
Família jê
Apinajé
Aquém
Caingangue
Cayapó
Suiá
Tapaiúna
Timbira
(
Canela
 •
Krikati
 •
Pukobyê
 •
Krahô
 •
Parkatêjê
 •
Kỳikatêjê
Família maxacali
Maxacali
Patxohã/Pataxó
Família mura
Pirarrã
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Língua puri
Outros
Crenaque
Carajá
Outras famílias
Família arawá
Banauá-iafi
Família aruaque
Apurinã
Baniua
Enawenê-nawê
Campa
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Terena
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ISA - Quadro Geral dos Povos
,
ISA - Troncos e famílias
,
ISA - De Olho nas Terras Indígenas
; *: extintos; ?*: reivindicados; "Aspas": grupos heterogêneos
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GO
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RO
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PR
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RS
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SC
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